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Carta de sangria

Publicado: Quinta, 14 de Junho de 2018, 13h37 | Última atualização em Quinta, 02 de Agosto de 2018, 18h44

Carta de confirmação do conselheiro, físico-mor e barão de Goiana dr. José Correia Picanço, concedendo licença ao escravo angolano Vicente para que pudesse realizar sangrias e arrancar dentes.

Conjunto documental: Fisicatura-mor
Notação: códice 145, vol. 08
Datas - limite: 1818-1825
Título do fundo: Fisicatura-mor
Código do fundo: 20
Argumento de pesquisa: físico-mor
Data do documento: 2 de setembro de 1820
Local: Rio de Janeiro
Folha (s): 146v

Leia esse documento na íntegra

"Registro da carta de sangria e dentista de Vicente, Preto de Nação Angola1.
O doutor José Corrêa Picanço2 V.S.ª faço saber a todos os provedores3 que eu por esta carta de confirmação dou licença a Vicente, preto de nação Angola, escravo4 de Anacleto José Coelho, morador desta corte do Rio de Janeiro, para que possa sangrar, sarjar, lançar ventosas e sanguessugas5 e tirar dentes.
Foi examinado em minha presença, pelos examinadores Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto e Antônio Américo d' Azevedo, cirurgiões6 aprovados e o primeiro da Real Câmara7, os quais deram por aprovado (...) debaixo de juramento que haviam recebido V.S.ª Passou-se conta aos vinte e dois de Agosto de mil oitocentos e vinte = e vai subscrita por Luís Bandeira de Gouveia Escrivão8 Secretário do Cirurgião Mor9do Reino = (...) pagou mil e seis contos de réis do selo. Rio dois de Setembro de mil oitocentos e vinte = Medeiros = o Conselheiro José Corrêa Picanço."


1Termo que revelava a origem ou, pelo menos, o local de embarque do escravo. Refere-se aos cativos vindos da região central da Angola moderna. Angola foi uma das maiores regiões fornecedoras de mão de obra escrava, sendo seus nativos apreciados pelos senhores do Brasil tanto por serem considerados mais pacíficos que os de outras regiões da África, como pela sua boa condição física. Reconhecidos pelas marcas de idade que traziam nos ombros, os escravos angolanos também se destacavam por fazerem trabalhos mecânicos e especializados.
2 Nascido na cidade de Goiana, província de Pernambuco, em 1745, dedicou-se inicialmente à profissão de barbeiro, sendo nomeado, aos 21 anos, cirurgião do corpo avulso de oficiais de ordenanças das estradas e reformados. Foi um dos signatários do Plano de Exames da Real Junta do Proto-Medicato. Por ter sido barbeiro, sua primeira profissão, o dr. José Corrêa Picanço dedicou-se à regularização dessa arte na colônia. Estudou e foi licenciado em cirurgia  em Lisboa e Coimbra. Em Paris (1758) recebeu o diploma de "Office Sante" e, posteriormente, o título de doutor em Medicina. Em 1808, o dr. Picanço ocupava o cargo de cirurgião-mor do reino de Portugal, estando sob sua responsabilidade a fiscalização da cirurgia em todos seus termos, incluindo-se aí, a arte dentária. Em 1809, o príncipe regente d. João VI extinguiu a Real Junta do Proto-Medicato, continuando, porém, o cirurgião-mor a exercitar sua autoridade através de seus delegados. No ano de 1811 foi expedida a primeira arte-licença de dentista, após a instalação do reino de Portugal no Brasil, em nome do senhor Pedro Martins de Moura.
3 Pessoa responsável por examinar o e acompanhar as arrecadações, fábricas, provimentos, bens e administrações do Estado, corrigindo o que não estiver conforme as respectivas leis.
4 Pessoa cativa, sem liberdade, que está  sujeito a um senhor como sua propriedade. Desde o século XV, os portugueses realizavam o tráfico de escravos africanos. A atividade escravista, além de ser um dos empreendimentos mais lucrativos de Portugal, era também a principal fonte da mão-de-obra para o cultivo de diversas culturas no Império lusitano. O Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco foram os principais centros importadores de escravos  africanos do Brasil.
5 Conjunto de práticas médicas da época. Todas estas técnicas intencionavam depurar o sangue do doente, pois se acreditava que o "mal" residia no sangue. Sangrar tratava-se de abrir as veias do paciente; sanguessugas era a aplicação de vermes de água doce com ventosas naturais que sugam o sangue  - como parasitas -  sobre a pele do doente; sarjas são aberturas feitas na carne com lancetas onde se punham as ventosas, vasos de metal ou vidro que eram aplicados para "dilatar o ar interno do corpo". O paciente, muitas vezes em estado muito debilitado, saía destas seções em situação precária de saúde.
6 Pessoa que pratica a cirurgia, que era a parte da medicina destinada as operações "de abrir e cortar membros do corpo humano". Contudo, na cultura da época, a cirurgia era tida como uma atividade distinta da medicina, sendo mesmo o cirurgião considerado social e culturalmente inferior ao médico. Aliás, era costume nos séculos XVII e XVIII, agrupar corporativamente os cirurgiões com os barbeiros. No Brasil de inícios do século XIX, a necessidade de médicos não permitiu uma distinção tão rígida, até porque os cirurgiões tinham que se improvisar médicos.
7 Trata-se de uma assembléia deliberativa constituída em um corpo legislativo, tal como a câmara dos deputados e as câmaras dos vereadores.
8 Oficial público e privado encarregado de escrever autos, atas, termos de procuração e outros documentos legais junto a diversas autoridades, tribunais e corpos administrativos. No século XVIII, o escrivão era uma figura ativa e presente em toda e qualquer reunião ou ato oficial, pois a burocracia assim exigia o registro de todas as atividades públicas.
9 Cargo que durante séculos constituiu a única autoridade na regulamentação, disciplina ou polícia da profissão da cirurgia, analogamente ao que sucedia com a medicina através da figura do físico-mor.

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):
No eixo temático sobre a "História das relações sociais da cultura e do trabalho"

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

Práticas e costumes na colônia
Sociedade colonial: as profissões coloniais
O Rio de Janeiro colonial
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