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Publicado: Terça, 05 de Junho de 2018, 13h41 | Última atualização em Segunda, 11 de Junho de 2018, 12h48

Carta de sangria

Carta de confirmação do conselheiro, físico-mor e barão de Goiana dr. José Correia Picanço, concedendo licença ao escravo angolano Vicente para que pudesse realizar sangrias e arrancar dentes.

Conjunto documental: Fisicatura-mor
Notação: códice 145, vol. 08
Datas - limite: 1818-1825
Título do fundo: Fisicatura-mor
Código do fundo: 20
Argumento de pesquisa: físico-mor
Data do documento: 2 de setembro de 1820
Local: Rio de Janeiro
Folha (s): 146v

Leia esse documento na íntegra

"Registro da carta de sangria e dentista de Vicente, Preto de Nação Angola1.
O doutor José Corrêa Picanço2 V.S.ª faço saber a todos os provedores3 que eu por esta carta de confirmação dou licença a Vicente, preto de nação Angola, escravo4 de Anacleto José Coelho, morador desta corte do Rio de Janeiro, para que possa sangrar, sarjar, lançar ventosas e sanguessugas5 e tirar dentes.
Foi examinado em minha presença, pelos examinadores Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto e Antônio Américo d' Azevedo, cirurgiões6 aprovados e o primeiro da Real Câmara7, os quais deram por aprovado (...) debaixo de juramento que haviam recebido V.S.ª Passou-se conta aos vinte e dois de Agosto de mil oitocentos e vinte = e vai subscrita por Luís Bandeira de Gouveia Escrivão8 Secretário do Cirurgião Mor9do Reino = (...) pagou mil e seis contos de réis do selo. Rio dois de Setembro de mil oitocentos e vinte = Medeiros = o Conselheiro José Corrêa Picanço."


1Termo que revelava a origem ou, pelo menos, o local de embarque do escravo. Refere-se aos cativos vindos da região central da Angola moderna. Angola foi uma das maiores regiões fornecedoras de mão de obra escrava, sendo seus nativos apreciados pelos senhores do Brasil tanto por serem considerados mais pacíficos que os de outras regiões da África, como pela sua boa condição física. Reconhecidos pelas marcas de idade que traziam nos ombros, os escravos angolanos também se destacavam por fazerem trabalhos mecânicos e especializados.
2 Nascido na cidade de Goiana, província de Pernambuco, em 1745, dedicou-se inicialmente à profissão de barbeiro, sendo nomeado, aos 21 anos, cirurgião do corpo avulso de oficiais de ordenanças das estradas e reformados. Foi um dos signatários do Plano de Exames da Real Junta do Proto-Medicato. Por ter sido barbeiro, sua primeira profissão, o dr. José Corrêa Picanço dedicou-se à regularização dessa arte na colônia. Estudou e foi licenciado em cirurgia  em Lisboa e Coimbra. Em Paris (1758) recebeu o diploma de "Office Sante" e, posteriormente, o título de doutor em Medicina. Em 1808, o dr. Picanço ocupava o cargo de cirurgião-mor do reino de Portugal, estando sob sua responsabilidade a fiscalização da cirurgia em todos seus termos, incluindo-se aí, a arte dentária. Em 1809, o príncipe regente d. João VI extinguiu a Real Junta do Proto-Medicato, continuando, porém, o cirurgião-mor a exercitar sua autoridade através de seus delegados. No ano de 1811 foi expedida a primeira arte-licença de dentista, após a instalação do reino de Portugal no Brasil, em nome do senhor Pedro Martins de Moura.
3 Pessoa responsável por examinar o e acompanhar as arrecadações, fábricas, provimentos, bens e administrações do Estado, corrigindo o que não estiver conforme as respectivas leis.
4 Pessoa cativa, sem liberdade, que está  sujeito a um senhor como sua propriedade. Desde o século XV, os portugueses realizavam o tráfico de escravos africanos. A atividade escravista, além de ser um dos empreendimentos mais lucrativos de Portugal, era também a principal fonte da mão-de-obra para o cultivo de diversas culturas no Império lusitano. O Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco foram os principais centros importadores de escravos  africanos do Brasil.
5 Conjunto de práticas médicas da época. Todas estas técnicas intencionavam depurar o sangue do doente, pois se acreditava que o "mal" residia no sangue. Sangrar tratava-se de abrir as veias do paciente; sanguessugas era a aplicação de vermes de água doce com ventosas naturais que sugam o sangue  - como parasitas -  sobre a pele do doente; sarjas são aberturas feitas na carne com lancetas onde se punham as ventosas, vasos de metal ou vidro que eram aplicados para "dilatar o ar interno do corpo". O paciente, muitas vezes em estado muito debilitado, saía destas seções em situação precária de saúde.
6 Pessoa que pratica a cirurgia, que era a parte da medicina destinada as operações "de abrir e cortar membros do corpo humano". Contudo, na cultura da época, a cirurgia era tida como uma atividade distinta da medicina, sendo mesmo o cirurgião considerado social e culturalmente inferior ao médico. Aliás, era costume nos séculos XVII e XVIII, agrupar corporativamente os cirurgiões com os barbeiros. No Brasil de inícios do século XIX, a necessidade de médicos não permitiu uma distinção tão rígida, até porque os cirurgiões tinham que se improvisar médicos.
7 Trata-se de uma assembléia deliberativa constituída em um corpo legislativo, tal como a câmara dos deputados e as câmaras dos vereadores.
8 Oficial público e privado encarregado de escrever autos, atas, termos de procuração e outros documentos legais junto a diversas autoridades, tribunais e corpos administrativos. No século XVIII, o escrivão era uma figura ativa e presente em toda e qualquer reunião ou ato oficial, pois a burocracia assim exigia o registro de todas as atividades públicas.
9 Cargo que durante séculos constituiu a única autoridade na regulamentação, disciplina ou polícia da profissão da cirurgia, analogamente ao que sucedia com a medicina através da figura do físico-mor.

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):
No eixo temático sobre a "História das relações sociais da cultura e do trabalho"

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

Práticas e costumes na colônia
Sociedade colonial: as profissões coloniais
O Rio de Janeiro colonial

Escola de cirurgia

Atestado de assiduidade de Silvestre da Fonseca Proença na Escola Cirúrgica do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, redigido pelo lente  de anatomia e cirurgia da Universidade de Coimbra João Manoel Pires de Menezes. Este documento permite conhecer algumas das disciplinas básicas ao conhecimento médico do período colonial, possibilitando ainda tomar conhecimento de algumas experiências médicas que se podia obter nas enfermarias do Hospital da Santa Casa de Misericórdia.

Conjunto documental: Fisicatura-Mor
Notação: caixa 475, pct.03
Datas - limite: 1810-1828
Título do fundo: Fisicatura-Mor
Código do fundo: 20
Argumento de pesquisa: físico-mor
Data do documento: 30 de maio de 1809
Local: Portugal
Folha (s): -

"João Manoel Pires de Menezes aprovado em Filosofia pela Universidade de Coimbra1, Lente2 de anatomia e cirurgia por provisão de S.A. Real3, cirurgião4 dos Hospitais da Santa Casa da Misericórdia5, e da venerável Ordem do Carmo, e Partido dos expostos, na cidade do Porto.
Atesto, que Silvestre da Fonseca Proença, natural da Vila do Souto de Penedon, comarca de Trancoso, freqüentou as aulas da Anatomia, Fisiologia, Patologia, e Terapêutica6 neste hospital debaixo do regulamento da Escola Cirúrgica do mesmo hospital como consta dos seus despachos e licenças, que do provedor desta Santa Casa me apresentou, e em virtude dos quais, se lhe fez a sua matrícula contada do dia 16 de outubro de 1807; e tendo freqüentado Anatomia, ouvindo as lições da sua obrigação, assistindo às demonstrações e sabatinas7 na conformidade dos Estatutos da Universidade de Coimbra mandados observar nas ditas aulas, e depois de ter sido habilitado em congregação de faltas fez publicamente o seu exame de Anatomia Teórica na aula do dito Hospital no dia 28 de julho e foi aprovado "nemine discrepante"8; e no dia 29 do dito mês e ano fez o de Anatomia Prática, e foi aprovado "nemine discrepante"; e depois de assim habilitado passou a freqüentar a aula de Fisiologia, Patologia e Terapêutica, que rege o cirurgião anatômico José Joaquim dos Santos Abreu, partidista9 do dito Hospital, e depois das suas respectivas aprovações, em que deu provas de ser um dos bons estudantes, que freqüentaram as ditas aulas; respondeu finalmente aos diários de moléstias, que nas enfermarias do dito Hospital se ofereceram, vendo fazer, e fazendo, as curas, ligaduras e operações, que diariamente se praticam; e por ter dado provas de ser um dos bons estudantes, que praticaram neste Hospital. Passei esta corroborada com os juramentos da minha profissão. Porto, 30 de Maio de 1809. João Manoel Pires de Menezes"

1 Foi fundada  por d. Dinis em 1 de março de 1290. Era a responsável pela formação dos membros da elite portuguesa e colonial. Alcançou grande importância e influência após as reformulações sofridas em 1772, durante a governação pombalina. Entre as modificações feitas, destacam-se a criação de duas novas faculdades (filosofia e matemática), e com elas  a implantação de novos métodos de estudo e investigação.  A partir de então, a reformada universidade de Coimbra passou a ser referência e modelo para as instituições de ensino existentes na época e posteriormente criadas.  
2 Professor catedrático.
3 Trata-se de d. João VI (1767-1826), segundo filho de d. Maria I e d. Pedro III, que se tornou herdeiro da Coroa com a morte do primogênito José em 1788. Assumiu a regência do Reino em 1792, no impedimento da mãe que foi considerada louca. Foi sob o governo do então príncipe regente d. João, que Portugal enfrentou sérios problemas com a França de Napoleão Bonaparte, sendo invadido pelos exércitos franceses em 1807. Como decorrência da invasão francesa em Portugal, a família real e corte lisboeta partiram para o Brasil em novembro daquele ano, aportando em Salvador em janeiro de 1808. Dentre as medidas tomadas por d. João em relação ao Brasil estão: a abertura dos portos às nações amigas; liberação para criação de manufaturas; criação do Banco do Brasil; fundação da Real Biblioteca; criação de escolas e academias, e uma série de outros estabelecimentos dedicados ao ensino e à pesquisa, representando um importante fomento para o cenário cultural e social brasileiro. Em 1816, com a morte de d. Maria I, tornou-se d. João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1821, retornou com a corte para Portugal, deixando seu filho d. Pedro como regente. Deu-se, ainda, sob o seu governo, o reconhecimento da independência do Brasil no ano de 1825.
4 Pessoa que pratica a cirurgia, que era a parte da medicina destinada as operações "de abrir e cortar membros do corpo humano".  Contudo,  na cultura da época, a cirurgia era tida como uma atividade distinta da medicina, sendo mesmo o cirurgião considerado social e culturalmente inferior ao médico.  Aliás, era costume nos séculos XVII e XVIII, agrupar corporativamente os cirurgiões com os barbeiros. No Brasil de inícios do século XIX, a necessidade de médicos não permitiu uma distinção tão rígida,  até porque os cirurgiões tinham que se improvisar médicos.
5 A primeira das Santas Casas da Misericórdia foi criada em 1498, em Lisboa, pela rainha Leonor de Lencastre. Tratava-se de uma organização de caridade  que estava associada a criação de hospitais e ajuda aos necessitados (viúvas, órfãos, mendigos, escravos e presos). Desde o início receberam da coroa portuguesa privilégios reais e doações. Dedicada a Nossa Senhora, a Santa Casa da Misericórdia foi instalada também nas colônias portuguesas como Nagasaki, Macau, Goa, Luanda, Salvador e Rio de Janeiro. No Brasil colonial, as Santas Casas foram o principal instrumento de ação social do governo português, detendo ainda o monopólio sobre os sepultamentos.
6 Disciplinas obrigatórias ministradas pela Universidade de Coimbra para a obtenção do diploma de médico. A anatomia era a "arte" destinada ao conhecimento das partes do corpo dos seres vivos através da dissecação.  A fisiologia propunha-se a investigação das funções orgânicas ou atividades vitais, como a respiração e a circulação. À patologia cabia o conhecimento e a distinção de enfermidades, enquanto  a terapêutica dedicava-se ao estudo dos meios mais adequados para aliviar ou curar as doenças.
7 As sabatinas eram uma espécie de recapitulação das matérias da semana, sendo uma prática muito difundida na colônia.
8 Expressão latina para designar algo que foi aprovado por unanimidade, "sem discrepância".
9 Médico remunerado pelos municípios e encarregado dos assuntos respeitantes à higiene rural, da assistência aos doentes pobres, etc.

Sugestões de uso em sala de aula:
- No eixo temático sobre a "História das relações sociais da cultura e do trabalho"

Ao tratar dos seguintes conteúdos:
- Práticas e costumes na colônia
- Sociedade colonial: as profissões coloniais
- A educação na colônia: o ensino superior

Regimento do Físico-mór

Impresso do regimento proposto pelo dr. Cipriano de Pina Pestana, físico-mor do Reino nos Estados do Brasil, regulando as  atividades de seus comissários, delegados e oficiais. Sob a condição de médicos aprovados pela Universidade de Coimbra, os comissários deveriam realizar inspeções periódicas para examinar a regularidade das boticas existentes em seus distritos e seus responsáveis. A eles também caberia a averiguação e aplicação de multas no caso de infrações ou irregularidades. Ao abordar estas e outras questões relacionadas à fiscalização da produção e da circulação de medicamentos no Brasil colônia, este documento permite acompanhar o esforço do governo em exercer um maior controle sobre a atividade farmacêutica.

Conjunto documental: Regimento que serve de lei, que devem observar os comissários delegados do físico-mor do Reino nos estados do Brasil
Notação: códice 314
Datas - limite: 1732-1827
Título do fundo: Ministério do Império
Código do fundo: 53
Argumento de pesquisa: físico-mor
Data do documento: 16 de maio de 1744
Local: Lisboa
Folha (s):-

Leia esse documento na íntegra

"Dom João1 por graça de Deus, rei de Portugal, e dos Algarves daquém, e dalém mar, em África. Senhor de Guiné. Faço saber a vós conde das Galveas2, vi ce-rei e capitão geral de mar e terra do Estado do Brasil, e a todos os governadores dele, chanceler, e mais ministros da Relação da Bahia3, ouvidores, câmaras, justiças, oficiais4, e pessoas do dito Estado que eu  fui servido mandar fazer pelo doutor Cipriano de Pina Pestana, médico de minha câmara, e físico-mor5 do reino, o regimento que adiante vai copiado para que os seus comissários se regulem por ele, e observem nas conquistas, e hei por bem que cumprais e façais cumprir o dito físico-mor do reino, e subscrita pelo escrivão de seu cargo lhe dará tanta fé, e crédito como ao regimento copiado, o qual será registrado nas secretarias dos governos, na relação, ouvidorias, e câmaras do mesmo Estado. El Rei Nosso Senhor o mandou pelo Doutor Alexandre Metello de Souza e Menezes, e Tomé Gomes Moreira, conselheiro do seu Conselho Ultramarino6. Theodoro de Abreu Bernardes a fez em Lisboa a dezenove de maio de mil setecentos e quarenta e quatro. O secretário Manoel Caetano Lopes de Lavre a fez escrever. Alexandre Metello de Souza e Menezes. Tomé Gomes Moreira.
Por despacho do Conselho Ultramarino de 17 de maio de 1744.

Cópia da Ordem
Manda El Rei nosso senhor por sua resolução de vinte e sete de maio deste presente ano, que o doutor Cipriano de Pina Pestana, físico-mor do reino, não dê comissão a pessoa alguma, que no Brasil sirva por ele, se não for médico7 formado pela Universidade de Coimbra8, e que o mesmo físico-mor faça novo regimento na forma em que os seus comissários devem proceder nas suas comissões com expressões dos emolumentos que devem levar. E que também faça um regimento para os boticários9 do dito Estado com atenção as distâncias, que ficam as terras das partes do mar. Ficando advertido que tanto os emolumentos dos seus comissários, como os preços dos medicamentos, nunca devem exceder o duplo, dos preços que neste reino se praticam, e que feitos os ditos regimentos os remeta a este conselho. Lisboa o primeiro de junho de 1742. Com três rubricas dos ministros do Conselho Ultramarino.

Regimento, que devem observar os comissários delegados do físico-mor do reino no Estado do Brasil.
...
S.1
Os comissários do físico-mor serão médicos aprovados pela Universidade de Coimbra, e de três em três anos visitarão as boticas que houverem no distrito da sua comissão, levando em sua companhia três boticários dos aprovados pelo físico-mor.
S.2
Examinarão se os boticários são aprovados, e têm cartas passadas pelo físico-mor do reino, e também se têm o regimento ordenado para os preços dos medicamentos, e se têm às balanças iguais, e os pesos, e medidas afiliados pelos oficiais destinados pelas câmaras para esta aferição.
S.3
E examinarão se os medicamentos são feitos com a perfeição, e bondade que manda a Arte Farmacêutica, e se nele existe ainda aquele vigor, e eficácia que possa produzir o efeito para que foram compostos, e verão todos os simples, e compostos que nas Boticas houver, sem exceção alguma.
S.4
Semelhante visita farão aos droguistas, e mais pessoas que tiverem medicamentos para vender. E terão cuidado logo que chegarem as frotas, ou navios aos portos, de saberem se vão Boticas10, drogas, ou medicamentos para se venderem, e lhe farão logo a primeira visita, para nela procederem com o mesmo exame, assim nos simples, como nos compostos.
S.5
De mais destas visitas que deve fazer quando chegarem os medicamentos aos portos do mar, e de três em três anos em todas as boticas, poderá também o comissário do físico-mor visitar, e examinar todas as boticas, e lojas de drogas quando entender que é conveniente, ou por ofício, ou por requerimento de parte, porém destas visitas extraordinárias não levará emolumento algum, porque só das que fizer quando os medicamentos chegam aos portos do mar, levará os emolumentos que abaixo se declaram no S.19.
S.6
Fará muito porque os boticários, e droguistas não tenham notícias do tempo em que se lhe hão de fazer as visitas, para que se não acautelem, ocultando alguns medicamentos corruptos, ou mal preparados, ou valendo-se de outros que não sejam seus. E se lhe constar que lhe ocultam alguns medicamentos, mandará pelos seus oficiais dar busca, e tirar das gavetas, para fazer neles o devido exame.
S.7
Achando-se nas visitas, e exames alguns medicamentos, ou simples, ou compostos com incapacidade, ou defeitos, os mandará queimar, ou lançar aonde se não possam tornar a recolher, e condenará ao boticário, ou droguista, ou outra qualquer pessoa que os tiver para vender, em quatro mil réis11 pela primeira vez, e em oito mil réis pela segunda vez que for compreendido; e se tornar a delinqüir no mesmo, será na terceira vez suspenso, e lhe mandará o dito comissário fazer auto pelo seu escrivão, juntando-lhe a prova, e o exame em que assinem os examinadores, para ser sentenciado como for justiça pelo físico-mor do reino, a quem fará remeter... esta culpa com citação da parte para vir dar a sua defesa.
S.8
As penas referidas no S. antecedente serão somente impostas aos boticários, e droguistas existentes no Estado do Brasil, e não se entenderão, nem praticarão com os medicamentos, e drogas que forem nos navios, porque se podem corromper na viagem; e neste caso não terá a pessoa que os levou mais pena, que lhe serem os ditos medicamentos, e drogas corruptos lançados em parte, donde se não possam a recolher.
...
S.10
Achando-se que algum boticário que vende medicamentos por receitas não tem carta do físico-mor, nem é dos 20 do partido da Universidade de Coimbra, lhe mandará fechar a botica, nem consentirá que prepare, nem venda medicamentos, e mande fazer um auto pelo seu escrivão com toda a prova necessária desta culpa, citada a parte para o dito auto, e também para a remessa dele para o físico-mor, a quem compete sentenciá-lo, conforme a culpa, e o livramento do réu.
S.11
Achando-se em alguma botica, ou loja de drogas, os pesos ou medidas sem aferição da Câmara, os condenará em quatro mil réis, na forma que se pratica no reino, e sendo compreendido segunda vez lhe fará auto, que remeterá ao físico-mor citada a parte, para se proceder as mais penas como for justiça.
...
S.15
Poderá o dito comissário com os boticários visitadores examinarem os oficiais de boticário, que tiverem aprendido nos distritos das suas comissões, tendo praticado 4 anos com boticário aprovado, do qual deve apresentar certidão12  jurada aos Santos Evangelhos, e reconhecida por tabelião, pela qual conste não só dos ditos quatro anos de prática, mas também de que o seu mestre o julga capaz para exercitar a mesma Arte, e sem embargo da dita certidão, será novamente examinado, e achando-o capaz, lhes passarão o dito comissário, e examinadores sua certidão autêntica, e jurada aos Santos Evangelhos, para com ela requerer ao físico-mor do Reino a sua carta de aprovação, sem qual não poderá usar da dita Arte, e somente lhe dará licença o dito juiz comissário para usar dela até a volta da primeira frota, a qual licença lhe não poderá prorrogar por mais tempo.
S.16
O comissário do físico-mor do reino tirará em cada um ano uma devassa13, em que examine se algum cirurgião, ou pessoa que não for aprovado de médico pela Universidade de Coimbra, ou não tiver licença do físico-mor do reino ... de Medicina, ou aplica remédios aos enfermos.
Item, se algum boticário leva pelos medicamentos mais do conteúdo no seu regimento.
Idem, se algum boticário se intromete a curar, ainda que seja pelas receitas dos médicos, que vão à sua botica, aplicando-as a diferentes pessoas, para que não foram feitas.
Idem, se alguma pessoa que não for boticário aprovado, prepara, e vende medicamento.
E não pronunciará os culpados nestas devassas, e as remeterá ao físico-mor do reino, para ele proceder por elas, na forma do seu regimento.
S.17
Não poderá o delegado do físico-mor do reino dar licença à pessoa alguma para curar de Medicina.
...
S.19
O comissário do físico-mor, e os seus oficiais, terão de salário em cada uma das visitas que devem fazer de três em três anos, e nas que fazem quando os medicamentos chegam aos portos do mar, como também o físico-mor do reino, dez mil e oitocentos réis por cada botica, ou loja de drogas que visitarem; a saber, quatro mil e oitocentos réis para o dito comissário delegado, e novecentos e sessenta réis para cada um dos boticários examinadores, quatrocentos, e cinqüenta réis para o escrivão do dito comissário, e trezentos, e cinqüenta réis para o seu meirinho.     
S.20
Terá o mesmo comissário do físico-mor de cada exame que fizer de boticário mil e seiscentos réis, e cada um dos três boticários examinadores oitocentos réis, ainda que o examinado não saía com aprovação, porque deve depositar antes do ato do exame, não só estes, emolumentos, mais importarão nove mil cento e vinte réis, a saber, quatro mil, e oitocentos para o físico-mor, quatrocentos e oitenta réis para cada um dos examinadores da Corte, quatrocentos e oitenta réis para o escrivão do juízo, e cargo do dito físico-mor do Reino, quatrocentos e oitenta para o meirinho do juízo, e quatrocentos e oitenta para o escrivão da vara do mesmo meirinho, e quatrocentos, e oitenta de esmola para os Santos Cosme, e Damião14, por ser este o estilo praticado sempre em semelhantes exames.
...
S.23
E porque os médicos mais aptos se não devem escusar de aceitar as comissões que o físico-mor lhes conferir, nem os boticários mais capazes devem escusar-se de serem examinadores visitadores dos boticários, por ser um serviço dos mais importantes na República, e o mais útil à saúde dos vassalos de Sua Majestade, que estas diligências se façam pelas pessoas mais doutas nas suas profissões. O governador do distrito constrangerá aos nomeados, tanto no cargo de comissário delegado do físico-mor do reino, como aos visitadores dos boticários para que aceite, com efeito, no caso que o repugnem fazer.
E nesta forma hei por acabado este regimento que faço não somente em virtude da jurisdição do meu cargo, nem por especial mandado de Sua Majestade, como no principio deixo declarado.
Lisboa 16 de Maio de 1744.
Doutor Cipriano de Pina Pestana, físico-mor do reino."


1 Trata-se de d. João V, "o magnânimo" (1689-1750), proclamado rei em 1706. Entre as medidas políticas mais expressivas de seu governo, encontram-se os tratados de Ultrech (1713-1715), selando a paz na guerra de sucessão espanhola e o tratado de Madri (1750), o qual retratou de maneira mais próxima a atual configuração do território brasileiro. Durante seu reinado, merece consideração a figura de Alexandre de Gusmão, brasileiro que intermediou o tratado de Madri.
2 Trata-se do 4º conde de Galvêas, André de Melo e Castro (1668-1753). Importante embaixador do governo de d. João V, foi nomeado governador e capitão-general das Minas em 1732. Quatro anos depois, foi elevado a vice-rei do Brasil, cargo que ocupou até 1749. Durante seu governo destacaram-se: a segunda perda da colônia do Sacramento e a instituição de corpos de milícias em Itaparica, seguindo os moldes dos seus similares na metrópole.
3 Também chamado de Relação do Brasil, a Relação da Bahia era um tribunal superior criado, em 1609, à semelhança da Casa de suplicação e da Relação do Porto. Com o objetivo de servir de Corte de Apelação do Brasil, o tribunal estava subordinado à Casa de Suplicação de Lisboa. Suas atividades foram suspensas entre os anos de 1626 e 1654, em função da reconquista da Bahia aos holandeses. Composta por dez desembargadores, a Relação contava com um ouvidor geral, um chanceler, três desembargadores dos Agravos e Apelações, dois desembargadores Extravagantes, um Juiz e um Procurador dos Feitos da Coroa e um Provedor dos Defuntos e Resíduos. O governador também intervinha no tribunal, presidindo suas sessões como regedor e dispondo da Relação como conselho consultivo para assuntos políticos e administrativos. Foi o mais alto tribunal da colônia até 1752, quando foi criada a Relação do Rio de Janeiro.
4 Pessoas que trabalhavam para a fisicatura como examinadores, visitadores, meirinhos, escrivães, etc.
5 Nos primeiros séculos da colonização do Brasil, o médico foi chamado de "físico", posto que a própria medicina era tida como "física",  dada a natureza de seus estudos. Nesse sentido, merece destaque a figura do "físico-mor",  que era a autoridade responsável pela prática e polícia da medicina.
6 Instituído em 1604, chamado inicialmente de Conselho das Índias, apenas em 1643 passou a ser conhecido como Conselho Ultramarino. Foi criado na época da União Ibérica para obter um maior controle do ultramar português. Era composto de dois secretários: um para os negócios do Brasil, Guiné, ilhas de São Tomé e Cabo Verde e outro para os negócios da Índia. Era responsável pela administração da Fazenda e de todos os assuntos de ordem financeira destes domínios.
7 Pessoa que exerce a medicina, ciência destinada a conservação e a reparação da saúde por meio de tratamentos e medicamentos. No século XVIII, o número de médicos habilitados na América portuguesa era bastante escasso, sendo por isso mesmo a medicina exercida por outros profissionais, entre eles os cirurgiões e os boticários. Porém, eram os médicos que gozavam de maior prestígio em razão da apurada formação que possuíam, dominando os conhecimentos necessários para o restabelecimento da saúde. Nesse período, o único estabelecimento do mundo luso-português voltado para os estudos superiores da medicina era a Universidade de Coimbra. No Brasil, a medicina começou a institucionalizar-se com a criação das primeiras academias médico-cirúrgicas, na Bahia (1808) e no Rio de Janeiro (1809), decorrentes da vinda da família real portuguesa. Como conseqüência, as práticas do curandeirismo, da homeopatia e do espiritismo foram sendo associadas ao charlatanismo. Nos primeiros séculos da colonização do Brasil, o médico foi chamado de "físico", posto que a própria medicina era tida como "física",  dada a natureza de seus estudos. Nesse sentido, merece destaque a figura do "físico-mor",  que era a autoridade responsável pela prática e polícia da medicina.
8 Foi fundada  por d. Dinis em 1 de março de 1290. Era a responsável pela formação dos membros da elite portuguesa e colonial. Alcançou grande importância e influência após as reformulações sofridas em 1772, durante a governação pombalina. Entre as modificações feitas, destacam-se a criação de duas novas faculdades (filosofia e matemática), e com elas  a implantação de novos métodos de estudo e investigação.  A partir de então, a reformada universidade de Coimbra passou a ser referência e modelo para as instituições de ensino existentes na época e posteriormente criadas.
9Pessoa que se dedicava à manipulação de substâncias, trabalhando nas boticas, que eram os lugares onde se preparavam e vendiam medicamentos, bem como "se aviavam receitas médicas". Seria o farmacêutico de manipulação de hoje.
10 Lugar onde se preparavam e vendiam medicamentos, bem como se aviavam receitas médicas.  É a farmácia de manipulação de hoje.
11 Moeda portuguesa utilizada desde a época dos descobrimentos (séculos XV e XVI). Tratava-se de um sistema de base milesimal, cuja unidade monetária era designada pelo mil réis, enquanto o réis designava valores divisionários. Vigorou no Brasil do início da colonização (século XVI) até 1942, quando foi substituída pelo cruzeiro.
12 Licença necessária para que o requerente pudesse praticar a arte de seu conhecimento antes de ter a sua carta definitiva (diploma). Essa licença era essencial para aqueles que se formavam fora da corte.
13 Investigação das provas e averiguação de testemunhas a fim de apurar um ato criminoso. No direito antigo era denominado devassa um ato jurídico no qual as testemunhas eram indagadas acerca de qualquer crime. Mais tarde, a palavra devassa teve o seu significado alargado às investigações sobre determinadas pessoas ou determinados fatos.
14Irmãos gêmeos martirizados pela Igreja Católica. Cosme e Damião são considerados patronos dos médicos, por causa de seus milagres de cura. De acordo com a hagiografia dos irmãos, estes exerceram a medicina por caridade na  Síria, Egéia e Ásia Menor.

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is): 
No eixo temático sobre a "História das relações sociais da cultura e do trabalho"

Ao tratar dos seguintes conteúdos:
Práticas e costumes na colônia
Sociedade colonial: as profissões coloniais
A administração colonial: controle e fiscalização na colônia

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