Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Temas > Brasil > Administração colonial > Sala de aula > O Rio de Janeiro no tempo do marquês do Lavradio
Início do conteúdo da página
Administração Colonial

O Rio de Janeiro no tempo do marquês do Lavradio

Escrito por Super User | Publicado: Quinta, 25 de Janeiro de 2018, 13h34 | Última atualização em Segunda, 05 de Fevereiro de 2018, 14h54

Relatório do marquês do Lavradio apresentado ao seu sucessor, Luís de Vasconcelos e Sousa, no qual descreve o estado físico e político da capitania do Rio de Janeiro quando assumiu o cargo de vice-rei.

Relatório do marquês do Lavradio apresentado ao seu sucessor, Luís de Vasconcelos e Sousa, no qual descreve o estado físico e político da capitania do Rio de Janeiro quando assumiu o cargo de vice-rei, as características dos habitantes locais, sua atuação política, as medidas realizadas e, finalmente, o estado em que deixou a dita capitania quando encerrou a sua administração. Através deste documento é possível perceber uma visão portuguesa da população colonial no século XVIII.

Conjunto documental: Capitania do Rio de Janeiro
Notação: Caixa 746, pct. 01
Datas-limite: 1700-1808
Título do fundo ou coleção: Vice-reinado
Código do fundo: D9
Argumento de pesquisa: Capitanias, governadores das
Data do documento: 19 de junho de 1779
Local: Rio de Janeiro
Folha(s): -

“Relatório do Marquês de Lavradio apresentado ao seu sucessor Luiz de Vasconcelos e Souza.

Tenho dado a V.Exª conta do estado militar, político e civil desta capital,  restando-me já o repetir a V. Exª a respeito da cidade o caráter das gentes; a qualidade de comerciantes, e o seu comércio1; e o sistema, que segui para os poder governar.
O caráter geralmente dos americanos destas partes d’América2, que eu conheço, é de um espírito mui preguiçoso, muito humildes, e obedientes, vivem com muita  sobriedade ao mesmo passo, que tem grande vaidade e elevação; porém estes mesmos fumos se lhes abatem com muita facilidade; e são robustos, podem com todo o trabalho, e fazem todo aquele, que se lhes manda;  porém se não há cuidado em mandá-los, eles por natureza ficarão sempre em inação, ainda a ponto de ser verem reduzidos à maior indigência.
Estes mesmos indivíduos, que por si são facílimos de governar, se vem a fazer mais dificultosos, e às vezes dão trabalho e algum cuidado por causa dos europeus, que aqui vem ter os seus estabelecimentos, e muito mais por serem a maior parte destas gentes naturais da Província do Minho3, gentes de muita viveza, de um espírito inquieto, e de pouca ou nenhuma sinceridade, sendo para notar que podendo adiantar-se muito estes povos na sua lavoura, e indústria4 com o trato daquelas gentes, que na sua província são os mais industriosos, e que procuram da terra tirar todas as utilidades que lhes são possíveis, neste ponto em nada tem adiantado os povos, porque logo que aqui chegam, não cuidam em nenhuma outra coisa, que em se fazerem  senhores do comércio, que aí há; não admitirem filho nenhum da terra a caixeiros, por donde possam algum dia serem negociantes; e pelo que toca à lavoura, se mostram tão ignorantes como os mesmos filhos do país. E como aqueles homens abrangem em si tudo, o que é comércio, os miseráveis filhos do país lhe são de tal forma subordinados pela dependência, que tem deles, que es sujeitam muitas vezes a cometerem alguns excessos, sugeridos por aqueles contra os seus naturais sentimentos .... Deus guarde a V. Exª. Rio de Janeiro5 em 19 de junho de 1779. Marquês do Lavradio.6 ao Senhor Luiz de Vasconcelos e Souza.7”

 

 


1 Nesta época, era entendido como a “troca das produções” - da natureza ou de manufaturas - por outro produto ou por dinheiro. Hoje, o conceito de comércio está muito mais associado a noção de troca de mercadoria por capital financeiro. Outra diferença, é que a atividade comercial ultrapassa a simples noção de troca de produtos,  englobando também a prestação de serviços.
2 Inicialmente chamada de Índias Ocidentais por se acreditar tratar-se da Índia, a América foi descoberta por Cristóvão Colombo em 1492, abrindo o continente à conquista européia. Enquanto os portugueses instalavam-se no litoral brasileiro, os espanhóis conquistavam o México e, de lá, a América Central, o Peru e o Chile. Quanto à América do Norte, coube aos ingleses e franceses o principal papel: os ingleses iniciaram a fundação das chamadas treze colônias em 1620 e os franceses ocuparam regiões hoje pertencentes ao Canadá em início do século XVII. Cristóvão Colombo (1451-1506) foi o navegador genovês que a serviço da rainha de Castela – d. Isabel I, “a católica” – descobriu a América em 1492, aportando em Cuba e no Haiti, batizada de Hispaniola.
3 Província de Portugal de grande importância no cenário medieval, onde se encontrava o núcleo principal do Condado Portucalense. Ao longo dos tempos, passou por várias modificações em seus limites geográficos. Atualmente, a província abrange apenas os distritos de Viana e Braga.
4 A indústria, neste momento, essencialmente manufatureira, tinha sentido similar ao da arte-ofício.
5 Fundada em 1565, por Estácio de Sá, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se sede do governo colonial em 1763, adquirindo grande importância no cenário sócio-político do Brasil. O comércio marítimo entre o Rio de Janeiro, Lisboa e os portos africanos da Guiné, Angola e Moçambique constituía a principal fonte de lucro das Capitanias. As lavouras tradicionais da região eram o açúcar, o algodão e o tabaco. Com a chegada da Corte, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro e as regiões próximas sofreram inúmeras transformações, com vários melhoramentos urbanos, tornando-se referência para as demais regiões. Entre as mudanças figuram: a transferências dos órgãos da Administração Pública e da Justiça e a criação de academias, hospitais e quartéis. Importantíssimo negócio foi o tráfico de escravos trazidos, aos milhares, em navios negreiros e vendidos aos fazendeiros e comerciantes. O Rio de Janeiro foi um dos principais portos negreiros e de comércio do país.
6 Trata-se do 2º marquês do Lavradio e 5º conde de Avintes, d. Luís de Almeida Soares Portugal Alarcão Eça e Melo (1729-1790), militar e político português. Vice-rei e Capitão geral de mar e de terra do Brasil entre os anos de 1769 e 1779, fizeram parte da sua ação governamental: medidas visando à salubridade do Rio de Janeiro, mandando entulhar pântanos e lagoas, e pavimentando ruas; remoção do mercado de escravos para um local mais afastado; desenvolvimento das plantações de café e arroz; introdução da cultura do vinho,  proteção e intensificação da produção de cochonilla e bicho-da-seda; instituição na capital do Brasil regimentos de milícias e fundação da sociedade de ciências naturais.  Entre suas funções, destacou-se como: Conselheiro da Guerra, Presidente do Desembargo do Paço, Inspetor-Geral das Tropas do Alentejo e Algarve, Veador da Rainha e Conde coroado com a Grã-cruz  da Ordem de Cristo.
7 Governador do Rio de Janeiro, Luís de Vasconcelos e Souza foi o sucessor do 2º marquês do Lavradio. Entre suas realizações mais famosas constam: a reforma do largo do Carmo, o aterro da lagoa do Boqueirão, a construção do Passeio Público. (1783) e novas ruas para facilitar seu acesso, como a Rua do Passeio, e a Rua das Bellas Noutes - atual Rua das Marrecas. Sucedeu-o no governo o conde de Resende.

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):
● Ao trabalhar o tema transversal “Pluralidade Cultural”
Ao tratar dos seguintes conteúdos:
● Homem e a cultura
● A sociedade colonial: desenvolvimento urbano e social
● Sociabilidades, povos e culturas

Fim do conteúdo da página