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Indumentária Colonial

Comentário

Publicado: Terça, 24 de Janeiro de 2017, 13h02 | Última atualização em Segunda, 06 de Agosto de 2018, 15h05
 A roupa e a moda no período joanino

Maria do Carmo Teixeira Rainho
Doutoranda em História - UFF
Pesquisadora do Arquivo Nacional

A transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, promoveu mudanças expressivas tanto no espaço urbano como no comportamento dos habitantes do Rio de Janeiro, incluindo as práticas de consumo, a sociabilidade e os padrões de vestimenta. Com a vinda da Corte, a cidade se tornou também um espaço privilegiado para a difusão da moda europeia.

A oferta de bens de luxo e de trajes importados no Rio de Janeiro beneficiou-se, em primeiro lugar, do status alcançado pela Inglaterra em relação ao comércio com o Brasil com a abertura dos portos, o que se traduziu na venda de tecidos e calçados. Quanto aos produtos franceses - tecidos e roupas femininas, chapéus, cosméticos e perfumes - passaram a ser oferecidos nas lojas das ruas dos Ourives e Ouvidor após a celebração da paz entre a França e Portugal, em 1814.

O sucesso alcançado pelo comércio francês devia-se em grande parte ao fato da França ter se tornado um modelo de bom gosto e elegância, que durante todo o século XIX dominou, especialmente, os trajes femininos. Segundo Gilles Lipovetsky, isso acontecia, aliás, em todo o mundo:

a partir do século XVII, a França se impôs cada vez mais como farol da moda na Europa, e a prática das ‘bonecas de moda', essas primeiras embaixatrizes de moda, que se torna corrente no século XVIII, revela ao mesmo tempo a tendência à unificação do traje europeu e o polo atrativo de Paris.1

A difusão da moda europeia no Rio de Janeiro se deveu também a novas exigências impostas à boa sociedade após 1808, um processo de "civilização dos modos" que refletia novas formas de socialização, com maior circulação nos espaços públicos, promoção de festas e saraus nas residências, frequência aos teatros e restaurantes, ampliando uma sociabilidade restrita, até então, aos tradicionais eventos religiosos e reuniões familiares.

Desse modo, tornam-se obrigatórios os cuidados com a higiene, as boas maneiras à mesa - incluindo o uso correto dos talheres -, o refinamento dos gostos e a adequação e a distinção dos trajes, com a adoção de vestimentas que respeitassem a ocasião, hora do dia, estado civil e faixa etária, tal como prescreviam os manuais de etiqueta e civilidade.2 A apreensão dessas regras e comportamentos era um dos elementos que possibilitaria à boa sociedade nivelar-se aos seus pares europeus e, ao mesmo tempo, distinguir-se do resto da população, "do povo mais ou menos miúdo e dos escravos".3

A adoção da moda europeia constituía-se, assim, naquilo que Herbert Spencer qualificou de imitação respeitosa, através da qual se busca alcançar a simpatia daquele a quem se imita. Mas, seguir a moda europeia relacionava-se ainda a uma necessidade de novas distinções. Segundo Frédéric Mauro, era uma escolha que expressava a "vontade de diferenciar-se do escravo negro e até do índio, de guardar o selo da Europa, da civilização, (...) marca de um complexo de inferioridade inconfesso e inconfessável em relação ao europeu".4

É importante ressaltar que, quer se tratassem das vestimentas da moda ou das fardas,5 o preço das roupas, acessórios e jóias era bastante alto. Conforme aponta Maria Beatriz Nizza em relação às fardas, mesmo um simples empregado público como Luís Gonçalves dos Santos estava compelido ao seu uso, o que o levava a reclamar indignado tanto do preço da indumentária quanto dos seus excessivos ornamentos: "constrangido vesti e estreei a minha farda de oficial de secretaria que, havendo-me importado perto de 120$000 réis com todas as suas bonecrices adjuntas, me encheu de vergonha".6  A autora nos lembra ainda que mesmo fardas já usadas como as que constam do inventário do negociante Elias Antônio Lopes eram avaliadas em 60$000 réis e 30$000 réis.
Os inventários, assim como os anúncios da Gazeta do Rio de Janeiro e as obras produzidas por viajantes como Debret, Rugendas e Chamberlain, entre outros, constituem um corpus significativo para aqueles que se interessam pelas escolhas vestimentares do período joanino. No acervo do Arquivo Nacional, além dos livros dos viajantes - destacando-se a sua iconografia -, encontram-se inúmeros inventários, dos quais selecionamos três, o de Elias Antônio Lopes,7 o de Ana Jacinta Teodoro de Barros8 e o de Ana Joaquina Deschamps.9

O inventário do conselheiro Elias, de 1815, chama a atenção pela quantidade e variedade de peças. Além das mencionadas fardas, dele constam inúmeras casacas, jaquetas, coletes, calças, calções e capas em tecidos nobres como o cetim e a seda e rústicos como o morim e a ganga. Vemos ainda referências ao robissão, sobrecasaca comprida, confeccionada em cor de vinho, azul, vermelho, ou em tecido listrado. Entre os acessórios estão cinco pares de sapato e um de botas, lenços, chapéus, luvas, uma bengala, um par de óculos e um relógio. As peças relacionadas à Ordem de Cristo também se distinguem pela sua riqueza, sobretudo as que incluem pedras preciosas e ouro, como o placar10 com "seiscentos e sessenta e três brilhantes grossos e miúdos, noventa e quatro rubis no coração e cruz e trinta e quatro esmeraldas na coroa" no valor de quatro mil réis.

As jóias, aliás, são um dos elementos de distinção social mais marcantes para homens e mulheres. Algumas jóias eram exclusivamente masculinas como as "fivelas antigas para pescocinho", as "fivelas de calção (de cós ou de liga)", os espadins com os seus ganchos de prata, as bengalas e os relógios como o que consta do inventário de Elias, com caixa de ouro, marca Spencer & Kerkins. Para as mulheres, eram comuns os alfinetes de peito, os pentes de cabelo, os cordões de ouro. Anéis, fivelas pequenas e fivelas de sapato eram usados por ambos os sexos. Uma grande parte das jóias apresentava, além do ouro, pedras preciosas como topázios, diamantes, águas-marinhas, crisólitas e esmeraldas. Estas últimas, diferente do que muitos afirmam, não eram encontradas no Brasil, pelo menos até meados do século XX.

Quanto à indumentária feminina, é interessante proceder a uma comparação entre o inventário de Ana Jacinta, de 1808, e o de Ana Joaquina, de 1816. Ambas possuem trajes e adornos de valor, como o anel com 38 diamantes em prata e ouro avaliado em trinta e dois mil réis, além dos inúmeros cordões, rosários e brincos, de Ana Jacinta, ou as várias peças confeccionadas em seda de Ana Joaquina. Contudo, no intervalo de oito anos entre um inventário e outro percebemos uma maior especialização das roupas - como "uma saia de chita para montar a cavalo" -, um uso mais ampliado de tecidos nobres - pois enquanto no inventário de Ana Jacinta a casimira se destaca, no de Ana Joaquina temos além da seda, peças em tafetá e filó de seda -, e uma maior quantidade e variedade de acessórios, como guarda-sóis, leques de seda bordados, leques de marfim, luvas de pelica e toucados.

Ressaltamos que a grande circulação de produtos de luxo após a vinda da Corte, sobretudo a partir do estabelecimento da paz com a França, não deve nos enganar quanto aos estratos da população do Rio de Janeiro que podiam consumi-los. A oferta de produtos e serviços - cabeleireiros, chapeleiros, modistas - era grande, porém, segundo Maria Beatriz Nizza, a partir dos cálculos do cônsul francês Maler escrevendo em 1816, apenas um oitavo da população urbana do Rio de Janeiro tinha acesso a esses bens e serviços.

Nesse sentido, para aqueles que desejam refletir sobre as escolhas vestimentares do período joanino, e não apenas sobre a moda, alguns desafios se colocam. O primeiro deles se refere a uma dificuldade em obter informações sobre a indumentária de categorias como a de artífices e pequenos empregados públicos ou das mulheres brancas e pobres. Quanto às populações escravas, como ir além dos relatos e da iconografia dos viajantes e dos anúncios de escravos fugidos publicados em jornais como a Gazeta do Rio de Janeiro? Além dessas fontes que contêm informações relevantes sobre tecidos e peças, alguns códices do acervo do Arquivo Nacional11, explorados por Maria Beatriz Nizza, fornecem pistas sobre mercadorias furtadas por escravos, revelando que roupas, sapatos e tecidos eram objeto de desejo não apenas pelo seu valor intrínseco, mas pelo aspecto distintivo que apresentavam. Leila Algranti12 ao se deter sobre a criminalidade escrava no Rio de Janeiro também aponta para os altos percentuais de furto de roupas, maior do que os crimes contra a propriedade, entre 1810 e 1821. Curiosamente, grande parte das vítimas desses crimes eram outros escravos, notadamente lavadeiras que transportavam trouxas de roupa.

Roland Barthes e Daniel Roche13 apontam que as histórias da indumentária vêm se interessando prioritariamente pelo vestuário das categorias sociais privilegiadas pela posição, riqueza, proximidade do poder, ou seja, pelas roupas da moda e pela maneira como elas ajudam a definir a posição social, demarcando o lugar ocupado por cada um. É certo que a moda e a indumentária são o cenário de várias batalhas em movimento, que as roupas da moda constituem um capital simbólico e a lógica da distinção é uma das chaves de leitura para se pensar o seu consumo. Contudo, a roupa e a moda no período joanino - como, aliás, em qualquer outro - exigem que abandonemos tanto as generalizações como as restritivas descrições da evolução das maneiras de vestir das camadas mais altas. Desse modo, seria possível compreender como as práticas vestimentares se encadeiam, num todo cultural, com as outras práticas da sociedade.

Finalmente, caberia ao historiador a tarefa de analisar o vestuário e a moda a partir do consumo, fenômeno que, segundo Roche, muitas vezes é esquecido pela historiografia francesa, mais preocupada em examinar o mundo da produção e dos produtores do que aquele do mercado e da demanda. Para Roche, além de fugir de uma perspectiva descritiva, o historiador deve pensar a moda de forma a conciliar os imperativos da cultura material e as exigências de uma história cultural preocupada com as práticas e representações.

Ora, é preciso estudar também os hábitos gerais, dos camponeses ao povo urbano, das classes populares às elites, e considerar os contextos de produção e de consumo, porque o vestuário está ligado a todos os fenômenos culturais, econômicos e sociais. Distinguindo indumentária e moda, nos lembra Daniel Roche que enquanto o vestuário "traduz a evolução da cultura, da sensibilidade, das técnicas, da inteligência dos produtores e da tolerância dos consumidores" a moda, por sua vez, "presta-se a todos os jogos da distinção, do poder". 

1 LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero. São Paulo: Cia. das Letras, 1989, p. 73.
2 Estas obras, que começaram a ser editadas no Brasil a partir do século XIX, eram traduções ou adaptações de textos produzidos na França e Inglaterra e caracterizavam-se, grosso modo, por enumerar um conjunto de regras e comportamentos a serem adotados pelas pessoas ditas civilizadas.
3 Ver REZENDE, Francisco de Paula de Ferreira. Minhas recordações. São Paulo: Itatiaia, 1988, p. 171, no qual o bacharel mineiro do início do século XIX propõe esta divisão da sociedade.
4 MAURO, Frédéric. O Brasil no tempo de d. Pedro II (1831-1889). São Paulo: Cia. das Letras, 1991, p. 41.
5 Uniformes que identificam as funções de civis e militares.
6 GONÇALVES, Luís dos Santos. Memórias para servir a história do Reino do Brasil, divididas em três épocas: da felicidade, honra e glória; escritas na corte do Rio de Janeiro, no ano de 1821. Lisboa: 1825, tomo 1, carta 116. Apud NIZZA, Maria Beatriz. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1978, p. 22.  
7 Fundo Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, Códice 789. Inventário dos bens do conselheiro Elias Antônio Lopes, 1815.
8 Fundo Inventários. Inventário de Ana Jacinta Teodósia de Bastos, maço 466, proc. 8902, 1808.
9 Fundo Inventários. Inventário de Ana Joaquina Deschamps, caixa 4014, proc. 420, 1816.
10 Insígnia equestre.
11 Códice 401, Polícia da Corte, Devassa da Polícia sobre vários delitos, 1809-1815.
12 ALGRANTI, Leila. O feitor ausente. Petrópolis: Vozes, 1988.
13 ROCHE, Daniel. História das coisas banais. Lisboa: Teorema, 1998 e BARTHES, Roland. História e sociologia do vestuário: algumas observações metodológicas. Inéditos, vol. 3 - Imagem e Moda. São Paulo: Martins Fontes, 2005.  

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