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Questão Cisplatina

Deserção das tropas

Escrito por Super User | Publicado: Terça, 06 de Fevereiro de 2018, 18h12 | Última atualização em Segunda, 25 de Junho de 2018, 13h39

Ofício do barão de Laguna a Tomás de Vila Nova Portugal em que mostra o seu desagrado com o estado do batalhão dos negros, que estavam com uma aparência miserável, e faz reclamações sobre o resto das tropas onde as deserções se fazem cada vez mais constantes, e estes desertores ainda freqüentemente levavam consigo os seus armamentos. Reclama também o envio de ao menos 3 mil cavalos ao Rio Grande para remontar a cavalaria, e de pessoal, posto que os 1400 homens que vieram com o general Pinto estavam tão maltratados que era impossível contar com eles.

Conjunto documental: Coleção Cisplatina
Notação: caixa 975 A
Data-limite: 1818-1818
Título do fundo: Coleção Cisplatina
Código do fundo: 1A
Argumento de pesquisa: Questão Cisplatina
Data do documento: 12 de abril de 1818
Local: Montevidéu
Folha(s): -

Em consequência da mudança acidental, que só pelas informações, e motivos de prudência, que informei a V. Exª no meu ofício de 28 de fevereiro, n° 27, julguei conveniente, e muito melhor julgaria se pudesse saber, como sei agora, a indispensável necessidade, que haveria de tal medida, chegou os dias passados a esta praça de divisão ligeira comandada pelo General Pinto, o muito sinto de ver a V. Exª que pela sua chegada fiquei mais embaraçado. E débil do que estava antes.
Eu nada tenho visto, que seja tão uniformemente mau na realidade, e na aparência, e para que V. Exª conceba de uma vez, tudo o que eu poderia explicar a este respeito, bastará dizer, que o batalhão dos negros1, e a gente de Santa Catarina2, que o acham dentro dessa praça servindo só de peso ao comissariado, aos aquartelamentos, e a polícia, nem a guarnição podem ajudar pela sua miserável aparência, e pelo seu nenhum préstimo, (os negros precisam ilegível vestido, eles, e os de Santa Catarina necessitam, ser disciplinados) e que o resto das tropas daquela divisão, colocadas no campo, tem o espírito de deserção de tal modo arraigado, que desaparecem em turmas, levando consigo os seus armamentos, sem que tenham sido bastantes para obviar esses caudaloso procedimento, e que tão mau efeito poderá vir a fazer nessa divisão, os cuidados de rondas, guardas, e sentinelas, porque elas também desertam ao mesmo tempo; resultando-me daqui a ser necessário encarregar outras tropas a fim de as vigiar, e cortar uma tão numerosa deserção: com esta oportunidade não ocultarei por mais tempo a dizer a V. Exª, que este mal há de continuar, e este aumenta-se enquanto os soldados souberem, que ele é apoiado pelas autoridades na capitania do Rio Grande3, que dela escrevem pessoas de conceito animado a deserção, e pintando lisonjeiramente o benigno acolhimento, que os desertores hão de receber; e finalmente, que eles com efeito ali são bem recebidos, e festejados.
Além disto esperando eu, que viessem da capitania do Rio Grande ao menos 3 mil cavalos para remontar a cavalaria desta divisão, e da quem houvesse de operar com ela, sucede que vieram unicamente com o general pinto 1400 tão maltratados, que foi necessário trazê-los a mão, vindos os soldados a pé, e sendo impraticável contar com eles este inverno para nada.
Sem embargo posso assegurar a V. Exª que estes inconvenientes, não prejudicam essencialmente a ocupação desta banda oriental4; obrigam só a tolerar as partidas de campanha, porém este é um mal irremediável, e que melhor há de ceder as insinuações da política do que ao efeito das armas: partidas soltas há de havê-las sempre que os povos não queiram impedi-los, e só isto há de chegar quando os povos conheçam que deste passo lhes resulta atitude os meios de política hão de mostrar-lhe sua conveniência, e então caem por si as nenhumas forças do Frutuoso5, que não passando de 300 homens, são as maiores da campanha6.
Deus Guarde a V. Exª. m. a. Quartel General de Montevidéu, 12 de abril de 1818.
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Tomás de Vila Nova Portugal
Barão de Laguna
 

1 O "Batalhão de Caçadores de Pretos libertos" foi criado pelo decreto de 10 de maio de 1817 para servir na Banda Oriental, atual Uruguai, alguns meses após a conquista de Montevidéu pelas tropas luso-brasileiras comandadas pelo general Carlos Frederico Lecor em 20 de janeiro daquele ano. O "batalhão dos negros" foi constituído de escravos adquiridos por meio de compras e doações de senhores aliados de Lecor. Outra parte desses efetivos foi recrutada entre os escravos que integravam as tropas comandadas por José Artigas, que lutava pela independência da Banda Oriental. Os escravos engajados nas tropas artiguistas, que quisessem desertar, receberiam em troca a liberdade. A alforria estava condicionada ao alistamento, obrigando o escravo desertor a servir no exército luso-brasileiro. Entre os anos 1817 e 1821, 237 escravos desertores das tropas de Artigas foram recrutados e alforriados. Com essa medida o general Lecor constituiu parte do contingente do "batalhão dos negros". Escravos e negros livres formavam uma força nada desprezível nos anos subsequentes à derrota de Artigas, que continuou lutando contra a ocupação portuguesa, reorganizando as suas forças a partir da campanha (o interior do país). A estratégia de conceder a liberdade para os escravos fugidos foi um recurso utilizado por Lecor, que visava não só manter os seus efetivos durante a ocupação, mas também infligir algumas baixas às tropas inimigas. O alistamento de escravos nos exércitos que lutaram nas guerras cisplatinas de 1811 a 1828 foi uma entre tantas estratégias utilizadas pelos cativos que buscavam a liberdade.
2 A capitania de Santa Catarina foi criada por meio de Provisão Régia em 1738, com base na desvinculação da ilha de Santa Catarina, e sua fronteira continental, até então sob jurisdição de São Paulo. Há menção à Santa Catarina em registros cartográficos de 1529, seu povoamento estaria relacionado à importância desse litoral para as navegações que se dirigiam a região do Rio da Prata. O território catarinense no século XVII foi marcado pela fundação dos povoados de São Francisco, Desterro e Laguna. As atividades produtivas estariam em torno do cultivo de subsistência e da tradição pesqueira. No final do século XVIII, a ilha de Santa Catarina foi alvo das invasões espanholas. No início do século XIX os tratados da Coroa Portuguesa com a Inglaterra incluíram a entrega de portos catarinenses para facilitar a rota de comércio inglês na Região do Prata. Em agosto de 1816, a expedição militar comandada pelo Tenente-General Carlos Frederico Lecor, a caminho de Montevidéu, fez parada em Santa Catarina, de onde recebia instruções do Rio de Janeiro, além de incorporar outras tropas na operação.
3 "Situado ao sul do estuário do rio da Prata, foi uma região descoberta ainda no século XVI, quando Martin Afonso de Souza realizou expedições para assegurar a manutenção dos territórios sob o domínio português, expulsando corsários franceses e fixando novos núcleos de povoamento. Possuía uma localização estratégica por ser o único acesso oferecido à navegação no estuário do Prata, garantindo assim a presença portuguesa no extremo sul. A capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul teve sua ocupação estabelecida tardiamente e ao longo do período colonial viveu sob intensas disputas territoriais, por se tratar de uma região limítrofe do império português na América, era uma base de operações militares e motivo de preocupação aos administradores do reino. A região foi elevada a condição de capitania em 1760, porém, subalterna a capitania do Rio de Janeiro. Em 1801, os gaúchos conseguem definitivamente a região de Sete Povos das Missões, cessando as disputas territoriais e em 1807 é elevada a capitania geral. A capitania aderiu a causa brasileira pela independência, e ao longo do período imperial foi palco de importantes disputas territoriais e questões de limites."
4 Uma das primeiras ações da corte portuguesa no Rio de Janeiro foi oferecer a proteção real aos povos do Rio da Prata, uma vez que a Espanha sofria invasões francesas lideradas por Napoleão. A proposta foi rejeitada por Buenos Aires, optando pela independência. D. Carlota Joaquina, filha do destronado rei espanhol, insistiu na sua legitimidade sobre esses domínios na América, mas a solução monárquica não prevaleceu. As tendências de emancipação e de obediência à Espanha serviram para justificar invasões portuguesas na Banda Oriental, atual Uruguai. A primeira invasão do território de Montevidéu ocorreu em 1811, o que impediu sua incorporação por Buenos Aires, além de reconhecer o domínio espanhol nessa região. A segunda invasão foi em 20 de janeiro de 1817. Houve a conquista de Montevidéu pelo então Tenente-General Carlos Frederico Lecor, o que inaugura uma ocupação que se estende até 1828 quando é reconhecida a independência do Estado Cisplatino Oriental. Entre 1817 e 1820 a luta pela autonomia da Banda Oriental foi dirigida por José Gervásio Artigas, restabelecendo a resistência depois de cada derrota. Em 1821 o congresso cisplatino instituiu uma anexação daquela região ao governo português, essa dominação foi politicamente administrada por Lecor. Em 1823 os adeptos a causa brasileira derrotaram tropas fiéis a Portugal em Montevidéu, o que reproduziu os conflitos entre Lisboa e Rio de Janeiro naquele momento. Entre dezembro de 1825 e 27 de agosto de 1828 a região cisplatina foi motivo de guerra declarada entre os Estados sediados no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, a intervenção na Banda Oriental, sob consentimento inglês, buscou evitar que as Províncias Unidas (atual Argentina) anexasse o território que se tornou o Uruguai e garantir a rota comercial - e de defesa - pelo Rio da Prata. Essas invasões faziam parte do projeto de império português nos trópicos, ainda que a política externa da dinastia Portuguesa na América estivesse em sintonia com a Europa.
5 José Frutuoso Rivera nasceu em Montevidéu em 1788. Destacou-se ao lado de José Artigas, apoiados pela Junta Revolucionária de Buenos Aires de 1810, na luta contra o domínio espanhol na Banda Oriental. Após a derrota definitiva dos espanhóis em Montevidéu em 1814, Artigas e Frutuoso Rivera lutam contra os antigos aliados portenhos e suas pretensões de manter a unidade dos territórios que integravam o Vice-Reinado do Rio da Prata. Em 1815, as tropas artiguistas derrubam o governo que representava Buenos Aires em Montevidéu. Com a invasão da Banda Oriental pelas tropas luso-brasileiras sob o comando do general Lecor e a tomada de Montevidéu no início de 1817, Artigas e Rivera lutaram contra os invasores até a derrota em 1820. Posteriormente Rivera incorpora-se ao exército português, levando com ele uma força de 400 homens. Em 1821 a Banda Oriental foi anexada à Coroa Portuguesa com o nome de Província da Cisplatina. A independência do Brasil dividiu as tropas luso-brasileiras e Rivera logo apoiou a independência participando da tomada de Montevidéu que se encontrava em poder de partidários de d. João VI. Frutuoso Rivera serviu como oficial no Exército brasileiro e posteriormente foi promovido de coronel a brigadeiro. Nesse período Buenos Aires continuou a luta para integrar Montevidéu, e sua campanha, às Províncias Unidas do Rio da Prata. Rivera lutou então ao lado de Juan Lavalleja que com o apoio dos estancieiros portenhos, ocupa a Cisplatina. Com a independência do Uruguai em 1828, apoiada pelo governo britânico, Rivera se tornou o primeiro presidente até 1834, reassumindo a presidência em 1838. Fundou o Partido Colorado (simpatizante das posições brasileiras) em oposição ao Partido Blanco (mais próximo das posições argentinas). Mesmo assim, a atuação de Rivera foi bastante controversa durante a Farroupilha: ora apoiava as forças imperiais, ora as forças republicanas que se rebelaram contra o governo central. Exilado no Rio de Janeiro, em 1846, Rivera fracassou na sua tentativa de voltar ao poder. Em 1854, participou de uma Junta Governativa no Uruguai ao lado de Juan Lavalleja. Morreu em 1855.
6 A campanha designa o interior do país, isto é, o interior da Banda Oriental (atual Uruguai). Em 1817, quando Lecor toma a cidade de Montevidéu, Artigas se refugia na campanha e reorganiza suas tropas para resistir à invasão luso-brasileira até 1820 quando então é definitivamente derrotado, e se exila no Paraguai. Artigas conhecia bem a campanha. Passou parte de sua juventude lá vivendo entre gaúchos, índios e tropeiros. Devido a sua atividade no comércio de couro e gado Artigas percorreu o interior do país convivendo com a população rural que mais tarde lhe daria apoio. As vitórias obtidas em 1815 sobre o governo representante de Buenos Aires contribuíram para sua popularidade notadamente nas províncias de Santa Fé, Entre Rios e Corrientes, situadas na margem oriental do rio Uruguai. Estas províncias lhe outorgariam o título de "Chefe dos Orientais e Protetor dos Povos Livres".

Sugestões de uso em sala de aula

- No eixo temático "História das representações e das relações de poder"
- No sub-tema "Nações, povos, lutas, guerras e revoluções"

Ao tratar dos seguintes conteúdos

- Guerra da Cisplatina (1825-1828)
- Estados Modernos: política e diplomacia (tratados) no período colonial
- A expansão territorial e as fronteiras do Brasil
- América: os conflitos luso-castelhanos

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