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Alimentação na américa Portuguesa

Carta de lorde Strangford ao conde de Linhares

Publicado: Terça, 06 de Fevereiro de 2018, 19h14 | Última atualização em Segunda, 06 de Agosto de 2018, 16h23

Cópia da carta de lorde Strangford, representante da coroa britânica no Brasil, ao conde de Linhares, d. Rodrigo de Souza Coutinho, na qual solicita plenos poderes a Guilherme Tidoe, para que este possa comprar, criar e matar 240 cabeças de gado e 600 de carneiro, a fim de fornecer a carne necessária ao consumo dos ingleses que residiam no Rio de Janeiro.

Conjunto documental: Generalidades
Notação: IJJ1 702
Datas-limite: 1811-1811
Título do fundo: Série Interior - gabinete do ministro
Código do fundo: A6
Argumento de pesquisa: alimentação
Data do documento: 26 de novembro de 1811
Local: Rio de Janeiro
Folha (s): 36-37

Leia o documento na íntegra

Cópia
Meu caro conde de Linhares[1]

O portador desta carta é o homem a quem os ingleses aqui residentes escolheram para lhes darem carne. Eu rogo a vossa excelência que se lembre quanto é essencial para os ingleses a boa carne assada[2]. Sem ela nós não podemos viver. Portanto se vossa excelência não nos socorre, morremos de fome, e então adeus comércio[3].
O que peço a vossa excelência, seriamente, é um aviso para dar poder a este homem, a fim de obrar conforme as expressas estipulações da nossa convenção; isto é para matar 240 cabeças de gado[4], e 600 de carneiro, e comprá-los no sítio em que quiser, sem algum empecilho do Rangel. Este homem Guilherme Tidoe está pronto a pagar os direitos no primeiro dia de cada mês, se for assim necessário. Ele comprou um pedaço de terreno, onde intenta engordar o gado à inglesa.
Suplico a vossa excelência da maneira mais viva a dar uma plena execução a nossa convenção sobre a carne de vaca. Tende compaixão dos nossos estômagos, e da carne de defunto do senhor Rangel, libera nos domine. = de vossa excelência = fidelíssimo, e afeiçoado criado e amigo. = Strangford[5].

My dear Count de Linhares,

The bearer of this letter is the man whom the English residents here have selected to kill meat for them. I beseech your Excellency to recollect how essential good roast beef is to Englishmen. We cannot live without it; therefore if your Excellency does not help us, we must die of hunger, and then, adieu commerce!
Seriously what I ask of your Excellency is an aviso empowering this man to act according to the express stipulations of our agreement, to kill 240 head of cattle, and 600 sheep, and to buy them in the country  where he pleases, without any impediment from Rangel, this man William Tidoe, is ready to pay the duties on the first day of every month, if it should be so required. He has bought a piece of ground where he means to fatten the cattle à l'anglaise.
I beseech you in the most `?] manner to give a full execution to our convention about the beef.
Ayez pitié de nos estomacs, et de la charogne de M. Rangel, Libera nos Domine!

De votre
Le très fidèle et `?] et amie

Strangford

 

[1] D.Rodrigo Domingos de Souza Coutinho Teixeira de Andrade Barbosa, conde de Linhares. (1755-1812) .Estadista português, foi aluno do Colégio dos Nobres e da Universidade de Coimbra, afilhado de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º marquês de Pombal que conduziu a política reformista de d. José I, d. Rodrigo frequentou círculos intelectuais europeus na França e na Suíça. Exerceu diversos cargos políticos - como o de embaixador em Turim - regressando a Portugal para assumir a pasta da Marinha e Domínios Ultramarinos (1796-1801), e o lugar de presidente do Real Erário (1801-3) até a sua vinda para o Brasil em 1808, quando foi nomeado secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra permanecendo no posto até 1812. Considerado um homem das Luzes, destacou-se por suas medidas visando à modernização e o desenvolvimento do Reino. D. Rodrigo aproximou-se da geração de 1790, vista como antecipadora do processo de Independência e foi o principal idealizador do império projeto luso-brasileiro no qual a centralidade caberia ao Brasil. Sob o seu ministério, o Brasil adquiriu novos contornos com a anexação da Guiana Francesa (1809) e da Banda Oriental do Uruguai (1811). Preocupado com o desenvolvimento econômico e cultural, bem como com a defesa do território, Souza Coutinho foi um partidário da influência inglesa no Brasil, patrocinando a assinatura dos chamados "tratados desiguais" de que é exemplo o Tratado de Aliança e Comércio com a Inglaterra (1810). Responsável pela criação da Real Academia Militar (1810), foi ainda inspetor geral do Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico da Ajuda; inspetor da Biblioteca Pública de Lisboa e da Junta Econômica, Administrativa e Literária da Impressão Régia; conselheiro de Estado; Grã-Cruz das Ordens de Avis e da Torre e Espada. 
[2] No original em inglês, roast beef. Corte de carne bovina, geralmente lagarto ou contrafilé, assado no forno no ponto de ficar cozido por fora e malpassado no interior, para ser fatiado e servido acompanhado de batatas ou legumes cozidos. Típico da culinária inglesa, e também de suas colônias, na Grã-Bretanha é considerado o prato de domingo. Ganhou uma versão nacional, o rosbife, e na cópia da carta foi traduzido como carne assada.
[3] Mesmo auferindo inúmeras vantagens com a abertura dos portos às nações amigas de 1808, somente dois anos depois, com o Tratado de Navegação e Comércio, que os ingleses alcançaram uma exclusividade nas relações comerciais com o Brasil. Este tratado concedia aos ingleses o direito de possuírem um porto na ilha de Santa Catarina, ponto de apoio para o comércio com Buenos Aires, além de reduzir para 15 % os direitos aduaneiros sobre mercadorias inglesas, taxa menor que a de Portugal. Outro importante artigo do tratado estipulava que os ingleses tivessem livre e irrestrita permissão para comprar e vender em quaisquer portos de Portugal e de seus domínios.
[4] A introdução da pecuária no Brasil deu-se no século XVI na capitania de São Vicente, seguindo logo depois para a Bahia. No período colonial, esteve relacionada à produção açucareira, no litoral nordestino, e à mineração, favorecendo a ocupação do interior do Brasil. Devido aos danos que o gado provocava na lavoura, surgiram conflitos entre pecuaristas e plantadores de cana, o que levou à carta régia de 1701 que estipulava uma distância de 10 léguas entre as plantações e o pasto. O gado, além de servir para alimentação, também entrava no ciclo produtivo da cana, na medida em que servia de transporte e força de tração. No Rio Grande do Sul, estâncias reais foram criadas em 1737 para a criação do gado, mas depois de algum tempo tal empresa tornou-se dispendiosa devido à redução do número de vacas, ocasionada pelo abate irregular. Chegou a ser proposta como solução a criação de ovelhas que seriam utilizadas de diferentes maneiras e diminuiriam a mortandade do gado. Com o estabelecimento dos ingleses nas grandes cidades do litoral brasileiro a partir da abertura dos portos, foi desenvolvido o gosto pelo gado inglês (Durham, Hereford, Polled Angus).
[5] Percy Clinton Sydney Smith (1780-1855), sexto visconde de Strangford em 1801 - foi o enviado britânico que negociou diretamente com D. João VI a proposta de transferência da corte portuguesa para o Brasil. Cumprindo os interesses britânicos, trabalhava secretamente pela independência das colônias espanholas. Negociou junto ao conde de Linhares os tratados de 1810, também conhecidos como tratado ou convênio Linhares-Strangford. Por sua constante intromissão em assuntos de administração da colônia, perdeu prestígio junto ao príncipe regente, sendo nomeado, em março de 1817, para servir em Estocolmo como representante da coroa britânica. O cônsul geral Henry Chamberlain assumiu o posto junto a d. João VI até a chegada do substituto de Strangford, o então representante inglês na Suécia, Edward Thornton. Dado à literatura, chegou a publicar, em 1803, um livro com traduções para o inglês de poemas de Luís de Camões.

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