Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Ouro e Diamantes na Colônia Americana

Em busca de falsificadores

Publicado: Quarta, 23 de Mai de 2018, 12h47 | Última atualização em Quinta, 21 de Junho de 2018, 16h45

Carta de Gomes Freire de Andrade para o conde das Galveas sobre o sucesso da fragata de Nossa Senhora das Ondas na proteção do ouro e busca dos criminosos como o padre Manoel Carneiro e Cristovão Cordeiro de Castro. A esta altura, o falsificador Antonio Pereira de Souza já havia fugido da capitania. Permaneciam em busca de indícios de mais dois deles, aparentemente ainda em Serro Fria: Aleixo Roys e Lourenço Pereira.

Conjunto documental: Correspondência de governadores do Rio de Janeiro. Original e Copia
Notação: códice 82, vol. 02
Datas-limite: 1722-1738
Título do fundo: Secretaria de Estado do Brasil
Código do fundo: 86
Argumento de pesquisa: mineração
Data do documento: 30 de setembro de 1733
Local: Rio de Janeiro
Folha (s): 61

Para o conde das Galveas [1] sobre criminosos.

Excelentíssimo senhor,

Meu senhor pelo índio [2] que trouxe a caixa e carta de vossa excelência para Diogo de Mendonça respondi em breve grande `...] que me achava na expedição da fragata [3] de nossa senhora das ondas, a qual saiu deste porto no dia vinte sete e eu fiquei gostoso vendo quanto efeito produziu a grande atividade de vossa excelência de cuja remessa me dou parabéns na certeza de bem recebida que há de ser esta conduta da nossa corte.
De São Paulo [4] vieram trinta arrobas de ouro [5] entre as quais se achava uma de noventa marcos: do importante cabedal que foi nesta nau [6] remeto a vossa excelência o extrato junto: queira deus que nas frotas sucessivas possamos contar igual felicidade. Quando recebi a de vossa excelência em que me fazia aviso de demarcar nesta capitania [7] com as marcas de São Paulo e Minas andava eu com maior trabalho em seguimento de Antonio Pereira de Souza [8] (de quem remeto os sinais da memória junto) que é o delinquente de tal delito: foram tão ativas as diligencias com que o apurei que estou certo haver saído desta capitania e nela fica preso Christovão Cordeiro de Castro um dos seus antigos sócios e na nau de guerra remeti par a corte o padre Manoel Carneiro [9], convencido do mesmo delito e seguro a vossa excelência não pararei obrar tudo o que possa conduzir ao embaraço da extração do ouro.
Entre as inquisições que tenho feito descobri que Aleixo Roiz Branco e Lourenço Pereira, seu camarada, ambos fugidos da cadeia desta cidade e culpados na devassa [10] do ouro se acham assistentes no Serro do Frio [11] e por uma carta que aqui se viu na mão do seu correspondente consta haver recebido no dito Serro Frio uns foles de ferreiro e alguns ferros que na frota lhe vieram do reino e na mesma carta se queixara de algumas coisas não serem do seu gosto: o que ponho na presença de vossa excelência na forma de ordens de sua majestade. A expedição dos reais quintos do rei se fez na forma que no seu papel expõem Eugenio Freire e pelo que toca os antecedentes anos farei aviso a corte na frota vindoura para ver se podemos achar aonde para o acréscimo daqueles anos.
Remeto a vossa excelência a reposta do provedor[12] da casa da moeda[13] sem embargo da qual eu lhe ordeno remeta logo a maior porção do que tiver. Aos pés de vossa excelência fico como devo.
Deus guarde a vossa excelência muitos anos. Rio de Janeiro a 30 de setembro de 1733 excelentíssimo senhor conde das Galveas.
Beija as mãos de vossa excelência seu sobrinho e fiel cativo, Gomes Freire de Andrade [14].

[1]CASTRO, ANDRÉ DE MELO E (1668-1753) - 4º conde de Galvêas. Embaixador junto à Santa Sé no governo de d. João V, foi nomeado governador e capitão-general de Minas Gerais em 1732. Quatro anos depois, 1736, tornou-se vice-rei do Estado do Brasil, até 1749. Logo no início de seu governo, a colônia de Sacramento foi invadida pelos espanhóis, mas com seu apoio, conseguiu resistir ao cerco até ser novamente retomada em 1737. foi. Promoveu a criação de tropas na Bahia e o povoamento dos sertões, como Minas Gerais e Goiás, e do sul, no Paraná e Rio Grande do Sul.
[2]O termo é uma construção histórica que remonta à época dos primeiros contatos entre os europeus e os americanos. Sua origem resulta de um equívoco do navegador Cristóvão Colombo que, ao chegar à América, acreditou ter encontrado as Índias. Apesar desse erro ter sido percebido pelos colonizadores, essa designação permaneceu sendo utilizada como referência a todos os nativos americanos. Calcula-se que existissem aproximadamente 100 milhões de nativos na América antes da chegada dos europeus e cerca de 5 milhões no território do Brasil. Geralmente, os nativos brasileiros dividiam-se em tribos de acordo com o tronco linguístico ao qual pertenciam: os tupi-guaranis, que ocupavam a região do litoral; os macro-jê ou tapuias que habitavam a região do planalto central e os aruaques e caraíbas que viviam na região Amazônica, entre outros. Foi Pero Vaz de Caminha, através de sua carta ao rei de Portugal, que descreveu pela primeira vez o nativo brasileiro. A colonização levou à tentativas, nem sempre bem sucedidas, de escravização dos índios, à disseminação de doenças até então inexistentes entre esses povos e à sua catequese pelas ordens religiosas. Para os portugueses, os índios foram uma fonte de conhecimento da natureza americana, orientando o consumo de plantas e animais com diferentes propósitos. No litoral ou nos sertões atraíram o interesse de outros europeus e foram desde cedo representados em livros como de André Thevet (1557), cujo relato e descrição dos indígenas da área da baía de Guanabara resultou da sua missão, junto à Villegagnon, de fundar a França Antártica, e Jean de Léry (1558) que, presente na mesma missão na França Antártica, também se dedicou a estudar os tupinambás da região do atual Rio de Janeiro; até a produção de viajantes e naturalistas deflagrada após as guerras napoleônicas. Com a chegada da corte portuguesa ao Brasil foi movida guerra ofensiva aos botocudos, determinada em carta régia de 13 de maio de 1808, que basicamente retomava a argumentação belicosa que embasou o impiedoso extermínio de outras etnias nos séculos XVI e XVII. O genocídio indígena era orientado por uma noção de que determinadas etnias - aquelas que se recusavam a submeter ao colono europeu e suas tentativas de "domesticação" - entravavam o desenvolvimento regional e a exploração e ocupação de áreas no interior.
[3]A fragata é um tipo de navio de guerra, desenvolvido em fins do século XVI, caracterizado pela agilidade e capacidade de manobra. Variando de tamanho e capacidade bélica, tinha um casco afilado e possuía armação redonda, e vela latina triangular e duas velas redondas. Seu uso se disseminou ao longo do século XVII, cujo final marcou o início da sua utilização como meio de transporte de valores. No século XIX esta embarcação a vela desapareceu, e atualmente fragata é um termo genérico que define um tipo embarcação motorizada e bastante ágil, utilizada na escolta de comboios de navios e submarinos.
[4]Na época da descoberta do ouro no interior da região sudeste do Brasil, a administração das terras desta região encontrava-se pulverizada entre as capitanias de São Vicente e Rio de Janeiro.  Em 1693 criou-se a capitania de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas do Ouro. A medida não foi eficaz para organizar as atividades decorrentes da exploração do ouro, e depois da guerra dos Emboabas em 1709, é criada a capitania real de São Paulo e Minas do Ouro, que incorpora também as capitanias de Itanhaém e São Vicente, comprada pela coroa. Esta capitania abrange um território bastante extenso, incorporado através das explorações de sertanistas e bandeirantes do planalto na região de São Vicente, onde se localizava a vila de São Paulo de Piratininga. Ao longo das décadas seguintes, este vasto território seria desmembrado, e o estado de São Paulo como hoje se apresenta tem pouco a ver com a capitania de São Paulo.
A capitania de São Vicente, que deu origem também à capitania de São Paulo, foi uma das únicas que vingou no início do processo de colonização, ainda nos primeiros anos do século XVI. Juntamente com a de Pernambuco, conseguiu certo sucesso econômico através da plantação de cana de açúcar. Desmembrada por razões de estado (caso da criação da capitania do Rio de Janeiro, seção norte da capitania de São Vicente) ou por rivalidades familiares (caso da separação da parte ao sul, que se tornou Itanhaém), ali nasceu um grupo social bastante típico, que criou raízes no planalto, acostumou-se a sobreviver por conta própria, devido às distâncias em relação ao litoral e ao descaso da administração metropolitana, e desenvolveu uma percepção aguda da necessidade de se explorar o vasto território desconhecido como única forma de encontrar novas riquezas. Estes exploradores abriam entradas e organizavam bandeiras, expedições de exploração territorial, busca de ouro e captura de escravos indígenas. Taubaté, São Paulo, São Vicente (a vila), Itu e Sorocaba se tornaram centros irradiadores deste movimento. Com a promessa de títulos e fortunas, os colonos investiam intensamente na busca de riquezas minerais, sonho alimentado pelas descobertas, ainda que limitadas, do ouro em ribeirões na região do vale do Ribeira e Santana do Parnaíba. As descobertas mais significativas se deram contudo, na região mais à noroeste, para além da serra da Mantiqueira, o que tornou esta região centro das atenções da metrópole e polo dinamizador da economia colonial. Com a grande afluência de pessoas às regiões das minas, vindas dos mais diversos lugares, tornou-se inevitável o conflito entre os vários grupos, em especial entre os "paulistas", primeiros descobridores, e os reinóis e seus aliados, os "baianos." Estes conflitos resultaram na guerra que ficou conhecida por guerra dos Emboabas, ao fim da qual uma reforma administrativa e uma legislação relativa a exploração do ouro foram implementadas com o intuito de regulamentar a atividade e garantir o controle de Portugal sobre seu território e suas riquezas. Criada em 1709, a capitania de São Paulo e Minas do Ouro (ou, capitania real de Minas do Ouro e Campos Gerais de Cataguazes) foi desmembrada em 1720, quando a capitania de São Paulo foi definitivamente separada da região das minas, que ganhou autonomia com o nome de capitania das Minas Gerais. Outro conflito que marcou a história da capitania de São Paulo ocorreu entre os sertanistas e bandeirantes e os jesuítas. A companhia de Jesus, tanto na América espanhola quanto na portuguesa, investia na arregimentação de indígenas como forma de garantir a ocupação e presença da Igreja nas colônias. Suas missões integravam milhares de índios que viviam da sua própria produção agrícola, produziam artesanato, aprendiam música e, claro, se tornavam cristãos.  Uma vez que o objetivo das entradas era a captura de nativos para o trabalho nas minas e lavouras (até o momento em que a mão de obra africana substituísse a local, que acabou sendo legalmente abolida da escravidão oficial entre 1755 e 1758), o conflito com a ordem religiosa Companhia de Jesus se tornou inevitável. A capitania de São Paulo, após um processo de desmembramento que criou as capitanias de Santa Catarina, São Pedro do Rio Grande, Goiás e Mato Grosso, foi extinta e incorporada à capitania do Rio de Janeiro em 1748. Voltaria a ganhar autonomia apenas em 1765, no contexto de medidas da metrópole que visava fortalecer a região centro sul da colônia, objetivando manter a irradiação da colonização para além dos limites estabelecidos pelo tratado de Tordesilhas (movimento para o qual a tradição sertanista dos paulistas se mostrava indispensável).
[5]O ouro, por ser um mineral ao mesmo tempo extremamente maleável e de incrível resistência às alterações químicas causadas por outros elementos, há milênios vem sendo utilizado na fabricação de ornamentos e na cunhagem de moedas. Geralmente precisa ser trabalhado sob a forma de liga com outros metais, que o tornam menos "mole." Foi utilizado como padrão de valor, lastreando a moeda diversas vezes ao longo da história, até 1971. Em geral é encontrado em rios, em forma de pepitas ou incrustado em outros depósitos minerais. O ouro no Brasil foi descoberto na região que corresponde atualmente a Minas Gerais, em fins do século XVII, por bandeirantes de São Paulo, após décadas de buscas infrutíferas por diversas expedições. Responsável pela prosperidade da região e principalmente, da Metrópole e do seu maior credor, a Inglaterra, sua produção entraria em declínio no último quartel do século XVIII, arrastando consigo as cidades da região que haviam florescido no período, em especial Vila Rica (Ouro Preto). Durante o período em que sua extração se manteve em auge, a corrida ao ouro originou tal afluxo de imigrantes (do Reino e de outras partes da colônia) que uma lei foi decretada para tentar conter a evasão de pessoas de Portugal. Atraindo pessoas de todos os tipos e "cabedais," a atividade mineradora desencadeou o desenvolvimento de uma sociedade diferente da predominante nas regiões de plantio extensivo (mais urbana e, a princípio, com maior diversidade social).
[6]Originalmente e até a época dos grandes descobrimentos, o termo nau definia uma embarcação de médio para grande porte, com acastelamentos na popa e na proa, e que contava com um mastro de pano redondo. A partir do referido período as naus se tornaram mais bojudas (a boca poderia apresentar cerca de um terço do comprimento da quilha), em geral bem armadas com artilharia pesada, e passaram e ter até 3 mastros. Tais modificações a tornaram uma embarcação bastante imponente, usada para intimidar adversários e guardar territórios, mas também de difícil manejo. Eram intensamente utilizadas para guardar o pouco povoado litoral brasileiro de piratas e missões europeias rivais.
[7] Entre 1808 e 1821, os termos "capitania" e "província" apareciam na legislação e na documentação corrente para designar unidades territoriais e administrativas do império luso-brasileiro. Inicialmente, as capitanias eram hereditárias e constituíam a base de administração colonial proposta pela coroa portuguesa. Era uma concessão de domínios, incluindo a soberania sobre estes e a permissão para aferição de proventos, que visava o estabelecimento de colônias e a implantação de atividades produtivas que garantissem para o reino a posse das terras descobertas. Embora tenha sido aplicado com relativo sucesso em outros domínios portugueses, no Brasil o sistema não funcionou bem, e com o tempo a maioria delas voltou para a posse da coroa, passando a denominar-se "capitanias reais." Em seu governo, o marquês de Pombal extinguiu definitivamente as capitanias hereditárias, em 1759. Esta decisão fez parte de uma reforma levada a cabo por Pombal que visava erguer uma estrutura administrativa e política que atendesse aos desafios colocados pelo Tratado de Madri, de 1750, segundo o qual "cada um dos lados mantém o que ocupou." Também era uma tentativa de resposta aos problemas de comunicação inerentes a um território tão extenso, que de forma cada vez mais premente precisava ser ocupado e explorado em suas regiões mais limítrofes e interiores. Em 1621 o território português na Américas dividia-se em Estado do Brasil e Estado do Maranhão, que reunia três capitanias reais (Maranhão, Ceará e Grão-Pará), além de 6 hereditárias. Entre 1752 e 1754 as seis capitanias hereditárias foram retomadas de seus donatários e incorporadas ao Estado, enquanto em 1755 a parte oeste foi desmembrada em uma capitania subordinada: São José do Rio Negro. O Estado do Grão-Pará e Maranhão foi dissolvido em 1774. Suas capitanias foram depois transformadas em capitanias-gerais (Pará e Maranhão) e subordinadas (São José do Rio Negro e Piauí), e integradas ao Estado do Brasil.
[8]Antônio Pereira de Souza ocupava o cargo de abridor dos cunhos da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, responsável portanto pelo molde das moedas reais. A partir de determinado momento, entretanto, este funcionário da Coroa portuguesa surge nos registros oficiais como um falsário e contrabandista. Suas conexões com figuras envolvidas no comércio ilícito (indivíduos de várias origens, de escravos a clérigos) tornaram-se claras aos olhos das autoridades da metrópole e seu nome aparece em devassas realizadas entre 1730 e 1740. Parte do ouro vindo dos sertões era cunhado em moedas falsas que atravessavam as fronteiras da América portuguesa ou se dirigiam para outros reinos europeus. Antônio Pereira, por trabalhar na casa da moeda do Rio de Janeiro, encontrava-se em posição privilegiada tanto para falsificar como para desviar o ouro da região. Inácio de Souza Jácome, juiz de fora da capitania do Rio de Janeiro foi o primeiro a acusá-lo de falsário, em 1730. Preso por ordem de Vahia Monteiro, que o manteve cativo no palácio dos Governadores, no Rio de Janeiro, com a justificativa da falta de segurança da cadeia pública da cidade, ele acaba escapando e se instala, temerariamente, nas cercanias da cidade, onde continua a sua atividade de falsário. Antônio Pereira tinha conexões com homens de negócios, religiosos e outros funcionários da coroa. Depoimento de uma companheira sua, Brites Furtada, indicava inclusive que o próprio procurador da Coroa na época, Sebastião Dias da Silva e Caldas, integrava esta rede de corrupção. Além deste, o juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes, que o teria abrigado em sua propriedade depois da sua fuga, também é citado. Foi preso por Gomes Freire em 1733, em meio a planos de construir uma fábrica de moeda falsa.
[9]O padre Manoel Carneiro aparece na documentação oficial como um dos cúmplices mais importantes do Mão de Luva. Oriundo do interior (Goyazes), o padre foi preso por Gomes Freire, enquanto se encontrava a caminho do Rio de Janeiro, e a partir da região de Parati, onde se escondia.
[10] Portugal possuía, na base do seu ordenamento jurídico do Antigo Regime, as chamadas ordenações, sistematização de leis gerais que regiam também suas colônias. Quando os portugueses aportaram na América, as ordenações em vigor eram as Afonsinas (1447), depois das quais vigoraram as Ordenações Manuelinas (1521) e depois as Ordenações Filipinas (1603), anuladas pela legislação do Império. O inquérito e a devassa já eram dispositivos encontrados nas Ordenações Afonsinas: no primeiro a investigação não contava com a presença do acusado, enquanto na segunda iniciava-se sem que o acusado tomasse parte nas atividades investigatórias. As Ordenações Manuelinas conheciam três formas de denúncia e investigação: querelas juradas (denúncia levada ao juízo competente, contendo a narrativa de um crime perpetrado por um indivíduo específico, podendo ter conteúdo de interesse público ou particular), denúncia (declaração oficial do crime de natureza pública, feita em juízo) ou inquirições devassas (comunicação da existência de um delito). Assim, por estas três formas poderia chegar ao conhecimento da autoridade competente a prática de certo crime. As Ordenações Filipinas permitiam também que os próprios moradores das vilas e cidades exercessem a denúncia e até a investigação. Em uma definição estrita, a devassa era a simples comunicação de delito levada ao juiz, iniciando assim a investigação. Processo de natureza inquisitória, concedia ao juiz e responsável pela investigação amplos poderes de direcionar o inquérito, o que permitia também grande espaço de manobra para que o Estado (ou, no caso de processos inquisitórios envolvendo heresia e religião, a Igreja) obtivesse o resultado desejado ao fim do processo. As devassas originalmente podiam ser gerais ou especiais; as primeiras, cujo objetivo principal era exercer um certo controle sobre os magistrados nas colônias portugueses, ocorriam regularmente, por exemplo, quando se indagava aos cidadãos se havia algo a ser dito contra a pessoa do magistrado que deixava seu cargo. Já as devassas especiais eram denúncias aceitas (e ulteriores investigações) a respeito de indivíduos e atos específicos, a qualquer momento. Ao contrário das devassas gerais (periódicas e voltadas para uma investigação preventiva de representantes da coroa), as devassas especiais tinham por alvo todo tipo de crimes e criminosos, incluindo rebeliões coloniais e roubos e desvios de riquezas. Contudo, as Ordenações Filipinas já interditavam a utilização das devassas gerais, a não ser nas esferas da correição, em que magistrados investigavam seus pares. 
[11] Localizado na serra do Espinhaço, o arraial conhecido por Serro do Frio tem início em princípios do século XVIII: o povoado ali existente foi elevado a vila em 1714 com o nome de Vila do Príncipe, e em 1720 passou a ser a cabeça de comarca de Serro do Frio. Ao lado do Arraial do Tejuco, a Vila do Príncipe do Serro Frio foi um centro irradiador de povoamento pioneiro na região dos diamantes.
[12] Cargo criado no Brasil em 1548, por ocasião da instalação do governo-geral, tendo por objetivo cuidar dos assuntos relativos à administração fazendária. No Brasil colonial, existiram várias categorias de provedores, todos subordinados ao provedor-mor (mais alta instância administrativa, responsável pela arrecadação, contabilidade, fiscalização e convocação dos oficiais da Fazenda) e que atuaram em instâncias diferenciadas, entre as quais pode-se mencionar a Alfândega, a Justiça, a Casa da Moeda, as Minas, Defuntos e Ausentes, entre outras. Nomeados pelo rei ou pelo governador-geral, os provedores eram responsáveis por acompanhar e administrar as rendas e direitos régios arrecadados, fiscalizar e registrar a movimentação comercial, cobrar os direitos, punir as irregularidades cometidas pelos oficiais de Fazenda, entre outras funções. Prestavam contas ao provedor-mor, inicialmente, e depois ao Conselho da Fazenda.
[13]A produção de dinheiro com metais (ouro, prata) tornou-se símbolo do poder real ainda na Idade Média, já que esta atividade era prerrogativa exclusiva do rei. Em 1644 a Coroa portuguesa instalou a primeira Casa da Moeda no território da sua colônia americana, em São Paulo, pois embora a exploração sistemática de grandes quantidades de ouro não tivesse começado, sinais da existência do metal já haviam sido encontrados na região. No entanto, apesar de toda a burocracia relativa à Casa ter sido levada a cabo, incluindo a nomeação de funcionários, não se conhece nenhum exemplar feito nela. Quando o ouro começou a de fato jorrar dos leitos dos rios em Minas, o governo português criou uma casa da moeda em 1694 na Bahia, na época centro de poder na colônia. Subsequentemente ela foi transferida para o Rio de Janeiro. Em 1714 foi instalada mais uma casa, novamente na Bahia, e mais uma em Vila Rica em 1725. Neste período as casas da moeda eram dirigidas por um provedor e um superintendente, cargos extintos em 1725. "Segundo Cléber Baptista Gonçalves, modernamente, se considera que a reunião das oficinas de fundição, laminação, corte, gravura e cunhagem caracteriza uma Casa da Moeda. Quando só uma ou algumas delas estão presentes, o que existe é uma mera oficina monetária. (citado do sítio da Casa da Moeda, GONÇALVES, Cleber Baptista. Casa da Moeda do Brasil, 290 anos de história, 1694-1984. Rio de Janeiro, 1985)." Apesar de penas severas previstas para falsificadores e contrabandistas, a existência de casas da moeda clandestinas na região das minas não era algo tão fora do comum. Na verdade, a falsificação de moedas foi levada a cabo por indivíduos de status social e algum cabedal, em nada se assemelhando a uma empreitada de criminosos marginalizados. Nos anos 1730, o notório falsificador Antônio Pereira de Souza, ex-fundidor da casa oficial, após fugir da prisão do governador do Rio Vahia Monteiro, associou-se ao padre Manoel Carvalho e a Carlos de Matos do Quental, abridor da Casa da Moeda, entre outros funcionários da própria Casa da Moeda. Alguns associados acabaram logo presos, o que fez com que a Casa fosse transferida para Itabaraba, e pouco depois definitivamente fechada após diligências oficiais.
[14] Andrade, Antônio Gomes Freire de. Conde de Bobadela. (1685- 1763). Nascido no Alentejo destacou-se no cenário militar e político, sendo agraciado com o título de conde de Bobadela em 1758. Ocupou o posto de governador e capitão-general da capitania do Rio de Janeiro (1733-1763) e de Minas Gerais (1735-1763), além de duas vezes responsável pela capitania de São Paulo (1737-1739 e 1748-1763). Empenhou-se na defesa dos limites da América portuguesa, visando à segurança das minas de Cuiabá e Goiás, assim como do litoral, sobretudo ao Sul, na Colônia de Sacramento e Rio Grande de São Pedro, ameaçados pelos espanhóis. Investiu na unificação do Sul, sob o comando do Rio de Janeiro, uma estratégia metropolitana que o favorecia politicamente. Criou as capitanias de Goiás e Mato Grosso, extinguiu a de São Paulo, que passou a ser unida ao Rio de Janeiro. Chefiou a Comissão Demarcatória do Tratado de Madri no setor sul de 1752 e 1759, envolvendo-se no conflito da Guerra das Missões entre soldados espanhóis, índios e forças portuguesas sem que se definisse um vencedor até 1762 quando Colônia é tomada dos portugueses. Retorna ao Rio de Janeiro em 1759 dedicando-se às intervenções na cidade, legando importantes monumentos como os Arcos da Carioca, O Convento de Santa Tereza e o então Paço dos Governadores. Faleceu no Rio de Janeiro

Fim do conteúdo da página