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A importância da agricultura para a civilização

Escrito por Mirian Lopes Cardia | Publicado: Quinta, 21 de Junho de 2018, 18h24 | Última atualização em Quinta, 21 de Junho de 2018, 19h17

Carta do desembargador da comarca de Goiás, Joaquim Teotônio Segurado, para Francisco de Assis Mascarenhas, conde de Palma, governador da capitania de Goiás, a respeito da importância da agricultura, das "artes" e do comércio para uma povoação. O termo "artes" designava o setor de manufaturas a ser aperfeiçoado, valorizando assim as matérias-primas, sem as quais não se poderia considerar haver "civilização".

Conjunto documental: Coleção de memórias e outros documentos sobre vários objetos
Notação: códice 807, vol. 10
Datas-limite: 1798-1836
Título do fundo: Diversos códices - SDH
Código do fundo: NP
Argumento de pesquisa: agricultura
Data do documento: 15 de abril de 1806
Local: Lisboa
Folha(s): 13-14

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor = A agricultura, as artes e o comércio são as colunas, em que pode firmar-se a felicidade de qualquer povoação[1]: pela agricultura[2] se conseguem as matérias-primeiras; pelas artes[3], dando-se-lhes nova forma, se lhes dá novo valor; pelo comércio[4] se exportam as supérfluas, e importam, as que faltam. Uma povoação isolada limita-se a agricultura; e se tem alguma civilização[5], se entre ela se introduz um sinal de todos os valores, ela estabelecerá suas artes, suas manufaturas[6], mas grosseiras; ela comerciará; mas o seu comércio além de interno, nunca passará de ser proporcionado aos seus objetos; e ela viverá em uma quase continuada desgraça; porque ou as colheitas são abundantes, ou escassas: no primeiro caso os agricultores não conseguirão as produções do seu trabalho preços proporcionados à despesa da agricultura: no segundo os artífices, e negociantes apenas poderão conseguir os necessários mantimentos para a sua subsistência; uma grande parte do povo padecerá, e muitos gados perecerão de fome. Se, porém esta isolação não é absoluta, mas só relativa à exportação dos seus gêneros; se ela efetivamente faz um comércio exterior, porém todo passivo; se para sustentar este comércio ela tem minas de ouro[7]; ou prata, que extrai do seio da terra, esta povoação está no cume da sua desgraça, e hoje, ou amanhã há de sofrer uma total extinção. Os homens dando às minas um valor imaginário, persuadindo-se de que elas serão sempre igualmente ricas, aumentam as despesas a proporção da sua imaginada riqueza: acabam-se efetivamente as minas ricas, buscam-se, e só se encontram pobres: lavram-se estas, mas o seu produto não é proporcionado à despesa: os homens não podem passar sem os gêneros, e mercadorias, a que se habituaram no meio da riqueza; os negociantes por conseqüência vendem, mas fiado, e por conseqüência vendem mais caro; e em última análise o negociante, ou não cobra, ou cobra pelos meios judiciais: eis arruinados negociante, e mineiro, eis a total destruição do país, que será desamparado da maior parte dos seus habitantes, sendo os miseráveis restos que por fatalidade nele ficam, vítimas da sua isolação, e da sua miséria. Quase neste estado se achava a capitania de Goiás[8], quando ela teve a ventura de principiar a ser governada por Vossa Excelência. Os seus habitantes acostumados unicamente com a lavra do ouro, que ordinariamente achavam com dificuldade, e grandes despesas, clamavam, que a capitania ia a expirar. Com efeito a falta de mantimentos em um ano fazia, que os seus habitantes sofressem misérias, e que perecessem muitas criações; a abundância em outros fazia perder o ânimo dos agricultores pelo desprezível valor, que se lhes dava.

Os açúcares[9] ficavam nas formas, e caixões dos senhores de engenho, o algodão[10], e café[11] apenas apareciam para o consumo do país, e enfim os mais gêneros, ou tinham excessivo, ou diminuto valor conforme a sua escassez, ou a sua demasiada abundância. A capitania nada exportava; o seu comércio externo era absolutamente passivo: os gêneros da Europa, vindos em bestas do Rio[12], ou Bahia[13], pelo espaço de 300 léguas chegavam caríssimos: os negociantes vendiam tudo fiado: daí a falta de pagamentos, daí as execuções, daí a total ruína da capitania.

E contudo os seus habitantes arraigados no antigo prejuízo, de que tudo o que não é tirar ouro, e trazer mercadorias do Rio, ou Bahia, tudo o mais é pouco seguro, é trabalhoso, é arriscado, é prejudicial, continuavam unicamente nas lavras de minas pobres, e no ruinoso comércio daquelas duas praças. E cegos sem poderem conhecer as causas da prodigiosa decadência da capitania, clamavam, que ela estava a expirar: e no meio da sua cegueira, eles a deixavam perecer: ela estava a borda do precipício, mas Vossa Excelência a salvou.

Logo que Vossa Excelência entrou nesta capitania lhe foi patente a fertilidade do seu terreno, e por conseqüência a facilidade de se aumentar a sua cultura, imediatamente se lhe apresentaram os canais, pelos quais se deve exportar o seu supérfluo, e combinando Vossa Excelência os princípios da mais sã Economia Política, achou com toda a evidência: que o comércio do Rio, e Bahia é prejudicial a esta capitania, e que pelo contrário o do Pará[14]pelos rios Araguaia, e Maranhão, a porão ao nível das mais ricas deste continente. Vossa Excelência principiou logo a clamar pelo aumento da agricultura, e pelo comércio com o Pará. Vossa Excelência tem representado a estes povos. Que eles têm a felicidade de habitar um país, em que para poderem ser riquíssimos não tem que abrir canais, de secar lagoas, fazer rios navegáveis, naveguem. Tais tem sido os repetidos clamores, com que Vossa Excelência tem animado estes povos à agricultura, e à navegação. Vossa Excelência porém não tem parado em persuasões: oferecem-se negociantes para descerem ao Pará, Vossa Excelência os auxilia: manda fazer-lhes canoas, faz-lhes aprontar a equipagem, e não se contentando em aplicar a maior vigilância ainda aos mais pequenos objetos, que possam facilitar aquele comércio, vai daqui quinze léguas a um sítio doentio, expondo a sua vida, a sua saúde só a fim de com a respeitável presença de Vossa Excelência animar os negociantes, a fazer que nada lhes falte na sua dilatada viagem. A mim particularmente saindo de correção fez Vossa Excelência as mais vivas recomendações, e deu as mais sábias instruções para cuidar no aumento da agricultura, e melhoramento da navegação para o Pará. Enfim pelas ativas diligências, e pelas bem acertadas providências de Vossa Excelência aí saem pelo Araguaia dez canoas com quatro mil arrobas de açúcar, fumos[15]toucinho[16] e sola[17]: pelas recomendações, que Vossa Excelência me fez, acha-se estabelecida no arraial de Traíras uma sociedade mercantil para principiar em 1807 o comércio do Pará pelo rio Maranhão para virtude das mesmas providências, já no ano de 1807 poderão exportar-se desta capitania dez ou doze mil arrobas de gêneros. E o que devemos esperar no de 1808, em que já devem ter principiado a produzir os algodoeiros, e cafés, que de novo se acham plantados, e que deverão ainda plantar-se? São enfim incalculáveis as vantagens, que o Estado, e que esta capitania vão tirar das providências sugeridas pelo penetrante, e iluminado espírito de Vossa Excelência. Estas vantagens ficarão mais palpáveis com a pequena memória do comércio ativo desta capitania, que tenho a honra de oferecer a Vossa Excelência, e que espero seja acolhida com aquela benignidade, com que Vossa Excelência me tem tanto distinguido.

Deus guarde a respeitável pessoa de Vossa Excelência por muitos anos. Lisboa 15 de abril de 1806 = Ilustríssimo e excelentíssimo senhor d. Francisco de Assis Mascarenhas[18] = De Vossa Excelência = O mais humilde súdito = Joaquim Teotônio Segurado[19]

 

[1] Entre finais do século XVIII e início do XIX, o pensamento fisiocrático de base ilustrada e as ideias liberais que começam a emergir com a revolução industrial inglesa influenciaram de forma significativa a elite letrada luso-brasileira. O princípio de que a união entre as três principais atividades produtivas - agricultura, comércio e manufaturas - são "as colunas em que pode firmar-se a felicidade de qualquer povoação" ganha força e expressão, remetendo ao conceito de felicidade do filósofo inglês David Hume, de caráter prático, concreto e utilitário. A "felicidade de qualquer povoação" era um bem possível de ser atingido pelo homem e consequentemente pela sociedade da qual faz parte, somente podendo existir se essas atividades não fossem tratadas separadamente, pois uma povoação isolada que se limita a agricultura ou do mesmo modo outra que se dedique apenas ao comércio ou à manufatura não poderia ter êxito. O estabelecimento de uma relação intrínseca entre agricultura, manufatura e comércio reflete a influência do pensamento fisiocrático, que segundo Fernando Novais em Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial - 1777-1808 (1979) servia apenas para a "política econômica reformista" iniciada em Portugal no reinado de d. José I, sem um processo de sistematização. Essa política econômica começou a ser executada pelo marquês de Pombal na segunda metade do século XVIII, com intuito de reformar o aparelho estatal português reforçando ainda mais o que a historiografia convencionou chamar de "exclusivo comercial" entre colônia e metrópole. Os pensadores e estadistas lusos se apropriaram das categorias de pragmatismo e utilitarismo presentes nas ideias fisiocráticas como uma inspiração para modernizar a política econômica mercantilista, sem abraçar de fato os princípios liberais que regiam as novas relações comerciais decorrentes da revolução industrial da Grã-Bretanha. Também os homens que compunham a administração da colônia aderiram a essa forma de pensamento, muitos formados pela Universidade de Coimbra, reformada no governo pombalino. E dedicaram-se a tornar possível a aplicação do princípio em diversas regiões da América portuguesa.
[2] Durante a maior parte do período colonial o sistema agrícola brasileiro se caracterizou pela grande lavoura monocultora e escravista voltada para exportação, definida por Caio Prado Junior pelo conceito de plantation. Entretanto, podiam ser encontradas também em pequena escala as pequenas lavouras, policultoras e de trabalho familiar. Com a chegada da Família Real e toda a estrutura do Estado português, houve a necessidade de maior abastecimento de gêneros agrícolas especificamente para o mercado interno. Na época a estrutura agrária brasileira era pautada pela rusticidade dos meios de produção, pela adubação imprópria e falta da prática do arado, enfim, o que havia era a presença modesta de técnicas modernas de cultivo. D. João VI, atento a essa situação emergencial, criou em 1812 o primeiro curso de agricultura na Bahia e em 1814, no Rio de Janeiro, uma cadeira de botânica e agricultura, entregue ao botânico e frade carmelita Frei Leandro do Sacramento, que entre os anos 1824 e 1829 dirigiu o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O objetivo era o melhor conhecimento das espécies nativas, não apenas para descrição e classificação, mas também para descobrir seus usos alimentares, curativos e tecnológicos. Mais do que isso, a promoção dos estudos botânicos e agrícolas era parte de uma nova mentalidade de promoção das ideias científicas, que já vinha sendo implementada em Portugal desde o final do século XVIII. A agricultura era vista como uma verdadeira "arte", pois era o melhor exemplo de como o homem era capaz de domesticar a natureza e fazê-la produzir a partir das necessidades humanas. Sua importância justificava a interferência do Estado em prol do aproveitamento racional das riquezas naturais, orientado pelas experimentações e pela própria razão.
[3] O sentido atribuído às artes no início do século XIX estava relacionado às artes mecânicas, que incluíam atividades que iam das artes manuais (confecção de objetos, inclusive decorativos, "artísticos" no sentido que atribuímos hoje) às ciências da natureza. Pode-se afirmar que a noção de "ofícios mecânicos" estava ligada à ideia das "artes úteis", que permitiam uma aplicação concreta em campos como a agricultura, a indústria, o comércio, a engenharia, as ciências naturais, a tipografia, ou seja, na produção de bens que auxiliassem a produção de riqueza do reino. Tidos como propulsores das atividades econômicas, os ofícios mecânicos eram considerados mais relevantes, úteis, do que as "belas artes". As artes mecânicas incluíam também ourivesaria, marcenaria, concepção e construção de inventos e máquinas destinados a melhorar a produção de bens.
[4] O controle do comércio e navegação entre o reino e suas colônias sempre foi uma preocupação do Estado português. Esse comércio era regido pelas convenções do pacto colonial, que reservava o monopólio dos produtos coloniais para a metrópole, embora a verificação de contrabando entre as colônias e outros reinos evidencie falhas e brechas no sistema. Tratado como um verdadeiro contrato político pressupunha uma série de instrumentos político-institucionais para a sua manutenção. Na prática, a Coroa não conseguia reservar esses mercados apenas para si e desde o século XVII eram feitas concessões cada vez maiores a aliados históricos, como os ingleses. Essa estrutura seria invertida com a chegada da Corte joanina e a consequente abertura dos portos às nações amigas de Portugal. Eliminava-se o exclusivismo mercantil e essa medida, na prática, favorecia mais à Inglaterra, que exigiu a manutenção e ampliação de certos privilégios econômicos. A dependência comercial com a Inglaterra seria aprofundada com a assinatura em 1810 do Tratado de Navegação e Comércio que estabeleceu uma série de medidas que dariam vantagens a este país sobre outras nações no comércio com o Brasil e Portugal.
[5] As raízes do conceito de civilização remontam ao período da Antiguidade, derivando do conceito latino civis, correspondente à polis grega, em ambos os casos referentes ao cidadão, aos habitantes das cidades. Foi somente a partir de meados do século XVI que à ideia de civilização foram incorporados novos significados, como a noção de "civilidade", ou seja, bons modos, maneira de se vestir, de comer, de se apresentar, de se comportar em relação ao modelo de cidadão, que variava de acordo com o local e o tempo. A primeira aparição da palavra "civilização" aconteceu em meados do século XVIII, na Inglaterra em 1757, e na França um ano depois. Na Inglaterra, civilization aparece na obra de Adam Ferguson, enquanto sua correspondente francesa civilisation pode ser encontrada na obra do marquês de Mirabeau. No caso alemão, zivilisation aparece 10 anos depois da publicação da obra de Mirabeau. Nenhum dos autores atribuiu um significado específico para a palavra; entretanto, a partir da década de 1770 na Inglaterra e na França, devido à influência da filosofia e do pensamento iluminista, o sentido da palavra passou a ser associado à ideia de progresso material e riqueza, enquanto na Alemanha, a palavra zivilisation obedecia mais a um sentido moral do que pragmático. É apenas no século XIX, depois da Revolução Francesa, que o conceito de civilização passa a ser usado para se referir a um processo histórico que se inicia na Antiguidade, sofre um declínio durante a fase "obscura" da Idade Média, orienta a formação dos Estados modernos e torna-se meta a ser atingida na construção das primeiras nações, já no oitocentos. Nesse processo linear, as nações europeias seriam as pioneiras na construção de civilizações com base em desenvolvimento tecnológico, científico, cultural, enquanto os países da África, Ásia e América seriam os desprovidos, os "atrasados", e por isso, segundo os princípios das Luzes, os três continentes necessitavam ser inseridos na "marcha da civilização", processo iniciado com as descobertas e colonizações. No final do século XVIII, o conceito de civilização em Portugal, e posteriormente no Brasil, está associado ao sentido econômico, mais próximo do pragmatismo norteador da ilustração portuguesa e na esteira da ideia de progresso, associando civilização ao enriquecimento material. No Brasil dos oitocentos, o conceito de civilização passa a simbolizar "uma etapa a ser atingida" pelo Estado brasileiro em seu processo de construção, de consolidação e de entrada na modernidade. Em oposição à civilização, a ideia de barbárie passa a ser associada ao regime escravista, obstáculo para que o Brasil atingisse o desejado estado de civilização. Se durante algum tempo a escravidão foi o motor para que o Estado brasileiro e sua classe senhorial conseguissem "civilizar-se", no final do XIX não somente a escravidão passava a representar o atraso, mas também o regime monárquico que se amparava nela.
[6] O termo manufatura frequentemente é associado à indústria e a fábricas, por vezes sendo usado indiscriminadamente. Ao longo do período colonial verifica-se a presença de pequena atividade manufatureira (de caráter doméstico e artesanal), devido à repressão operada pela Coroa portuguesa por este tipo de prática ferir a estrutura do sistema colonial e a lógica mercantilista. Essa repressão culminou com a assinatura do alvará de 5 de janeiro de 1785, que proibiu a atividade manufatureira no Brasil, à exceção da produção de tecidos grosseiros de algodão, que serviam para ensacar gêneros agrícolas e para vestuário dos escravos. Somente depois da transferência da Corte e da sede do Império português para o Brasil em 1808, por meio do alvará de 1º de abril do mesmo ano, o príncipe regente revogou a lei de 1785 e, não apenas autorizou como passou a incentivar a instalação de fábricas no Brasil, concedendo isenção de direitos de importação de matérias-primas e subsídios para a construção das primeiras manufaturas, sobretudo no setor têxtil e de ferro. Ainda assim, boa parte das manufaturas criadas não vingaria; entre as razões principais para este insucesso, a impossibilidade das pequenas fábricas, sem mão-de-obra especializada e sem uma verdadeira organização fabril, de competir com as importações inglesas, mais baratas, e de qualidade muito superior, preferidas pela maioria da população em condições de consumir. Sem capital para investimento em melhorias e sem um mercado consumidor interno, a maior parte delas acabou falindo. Dentre as manufaturas que mais se destacaram ao longo do período colonial podemos citar a construção naval favorecida pela grande oferta de madeiras de boa qualidade proporcionada pela colônia; a produção de têxteis, principalmente dos tecidos grossos de algodão para consumo interno, atividade doméstica e feminina, muito disseminada pelo Brasil (sobretudo em Minas Gerais) e que constituía a fonte de renda para muitos colonos; e atividades artesanais diversas, urbanas e rurais, voltada para a produção de artigos necessários à vida cotidiana, como móveis, cerâmica, instrumentos de ferro, sapatos, ourivesaria, entre outros, exercidas sobretudo por escravos de ganho e libertos. A liberação das manufaturas e sua promoção em todo Império português por d. João em abril de 1808, faziam parte de toda uma política de cunho liberal defendida por intelectuais como José da Silva Lisboa, visconde de Cairú. Com a liberação, houve uma série de alvarás posteriores, que concediam isenções e privilégios, para impulsionar a produção manufatureira no Brasil e nos domínios ultramarinos portugueses.
[7] O ouro, por ser um mineral ao mesmo tempo extremamente maleável e de incrível resistência às alterações químicas causadas por outros elementos, há milênios vem sendo utilizado na fabricação de ornamentos e na cunhagem de moedas. Geralmente precisa ser trabalhado sob a forma de liga com outros metais, que o tornam menos "mole". Foi utilizado como padrão de valor, lastreando a moeda diversas vezes ao longo da história, até 1971. Em geral é encontrado em rios, em forma de pepitas ou incrustado em outros depósitos minerais. O ouro no Brasil foi descoberto na região que corresponde atualmente a Minas Gerais, em fins do século XVII, por bandeirantes de São Paulo, após décadas de buscas infrutíferas por diversas expedições. Responsável pela prosperidade da região e principalmente, da Metrópole e do seu maior credor, a Inglaterra, sua produção entraria em declínio no último quartel do século XVIII, arrastando consigo as cidades da região que haviam florescido no período, em especial Vila Rica (Ouro Preto). Durante o período em que sua extração se manteve em auge, a corrida ao ouro originou tal afluxo de imigrantes (do Reino e de outras partes da colônia) que uma lei foi decretada para tentar conter a evasão de pessoas de Portugal. Atraindo pessoas de todos os tipos e "cabedais," a atividade mineradora desencadeou o desenvolvimento de uma sociedade diferente da predominante nas regiões de plantio extensivo (mais urbana e, a princípio, com maior diversidade social).
[8] Entre 1590 e 1670, diversas bandeiras percorreram o território da região do atual estado de Goiás, vindas de São Paulo e, a partir de 1653, outras partem de Belém pelo Amazonas e alcançam a região dos rios Tocantins e o Araguaia. Além de bandeirantes em busca de ouro e escravos, também jesuítas chegaram para catequizar. Em 1725 o bandeirante conhecido por Anhanguera, Bartolomeu Bueno da Silva, anuncia a descoberta de ouro na região da nascente do rio Vermelho, nos contrafortes da Serra Dourada. Nesta região, em 1727 é fundado o arraial de Santana, que viria a se transformar na vila Boa de Goiás, próximo da fronteira com o atual estado do Mato Grosso. A exploração do cobiçado mineral na região ampliou as fronteiras ocupadas da América portuguesa, inicialmente com a chegada dos colonos de São Vicente, tradicionalmente berço de desbravadores e caçadores de riquezas, aos quais logo se seguiram reinóis e aventureiros de diversas capitanias. A capitania de Goiás foi criada em 1744, a partir de mais um desmembramento de São Vicente. Índios chamados goyazes habitavam a Serra Dourada, e deram origem ao nome da capitania. Aparentemente haviam migrado da região amazônica em tempos não muito remotos, e juntaram-se a outras tribos em resistência às seguidas tentativas de extermínio e escravização pelos brancos que chegavam atrás do ouro.
[9] Em Portugal, a cultura da cana-de-açúcar foi introduzida no Algarve e na região de Coimbra, no século XIV, passando à ilha da Madeira, na costa africana, em meados do século seguinte. Não há precisão quanto à data de introdução da cana-de-açúcar no Brasil, mas há um certo consenso quanto ao início da maior sistematização de seu plantio, a partir da segunda metade do século XVI. A fabricação do açúcar exigia alguns requisitos: a instalação de um engenho, que demandava capitais consideráveis, e trabalhadores capazes de dar o ponto de cozimento adequado. Os engenhos eram estabelecidos próximos a um curso de água, que servia de força motriz para a moenda e de escoadouro para a produção (engenho real). Mas também havia, e em maior número, aqueles movidos à tração animal (trapiches). Exceto pelos trabalhadores especializados, livres e assalariados, a mão-de-obra dos engenhos era predominantemente escrava. De início, recorreu-se aos indígenas, mas após 1570 os africanos tornaram-se cada vez mais comuns. O comércio transatlântico de escravos converteu-se em um lucrativo negócio nessa época. O cultivo da cana de açúcar progrediu ao longo do litoral brasileiro na direção Norte, se desenvolvendo mais no Nordeste, especialmente na capitania da Bahia e de Pernambuco, sendo esta última a maior produtora de açúcar do Brasil, contando com 66 engenhos no fim do Quinhentos. Nesse período, a maior parte do açúcar brasileiro destinava-se ao mercado internacional, chegando a portos do norte da Europa, especialmente Londres, Hamburgo, Antuérpia e Amsterdã, aonde era refinado e comercializado. Apesar disso, a cultura da cana-de-açúcar foi muito importante, também, para o mercado interno. Muitos engenhos aproveitavam a cana para a produção da aguardente, usada em grande escala no tráfico de escravos. A fabricação de açúcar foi, seguramente, o primeiro empreendimento econômico a funcionar, de modo organizado, nas terras brasileiras. Outras atividades surgiram, mas a empresa açucareira permaneceu como a principal por mais de um século.
[10] Diversas espécies nativas de algodão podiam ser encontradas no Brasil desde os primeiros anos de colonização. A chegada das primeiras técnicas de fiação e tecelagem com a fibra algodoeira, no entanto, datam do século XVII, quando as roupas de algodão passaram a ser utilizadas para a vestimenta dos escravos nos meses de mais calor. A partir da segunda metade do século XVIII, a crescente demanda pelo consumo de algodão pelo Império britânico forçou a expansão do cultivo e a fabricação de fios no Brasil. Esse processo provocou uma segunda onda de interiorização da produção mercantil para exportação, isso porque o plantio do algodão é mais propício em clima seco, com chuvas regulares, ou seja, em áreas afastadas do litoral. Foi no Maranhão, através dos incentivos criados pela Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, que o crescimento da produção algodoeira foi mais intenso e longevo, perdurando até meados do século XIX. No Estado do Grão-Pará e Maranhão, foi ainda empregado no pagamento dos funcionários régios e nas transações comerciais (na forma de novelos ou de peças de pano) até 1749, quando foi introduzida a moeda metálica naquela região. No Oitocentos, apesar da onda de produção crescente, o baixo preço e a qualidade superior do algodão norte-americano terminou por suplantar o produto brasileiro nos mercados internacionais.
[11] O café, planta de origem etíope da família das rubiáceas, começou a ser utilizado como bebida na Arábia. A expansão do consumo pela Europa deu-se entre os séculos XVII e XVIII, por suas qualidades estimulantes. Consta que chegou ao Brasil, em 1720, trazido pelo oficial português Francisco de Melo Palheta, que plantou as primeiras mudas no Pará. Ao longo do século XIX o café tornou-se uma bebida popular, disseminando-se muito, principalmente a partir de 1865, quando passou a ser comercializado torrado e empacotado (anteriormente era vendido em grãos). Destacam-se no Brasil duas grandes fases da agricultura cafeeira, a primeira, de inícios do Oitocentos até os anos 1850, iniciada nas encostas do morro da Tijuca no Rio de Janeiro em plantações caseiras, até se propagarem por todo o Vale do rio Paraíba do Sul, a leste e oeste, com foco na região da cidade de Vassouras, o maior centro produtor da época. Nestas regiões o café iniciou seu grande desenvolvimento pela abundância de terras férteis, pelo bom clima e pela mão-de-obra escrava disponível. Ocupou o lugar das plantações de cana, algodão e alimentos, gerando escassez e carestia dos gêneros de abastecimento, além de ter promovido a derrubada e queimada de grandes extensões da mata atlântica. A segunda fase, iniciada a partir de metade do século XIX, foi marcada pela extensão das lavouras para São Paulo, seguindo o vale do Paraíba, e depois de 1870, avançando pelo Oeste Paulista. Ocorrida depois da abolição do tráfico, esta época ficou marcada pela intensificação do tráfico intra e interprovincial, o que promoveu o aumento do preço dos cativos, direcionando escravos para as áreas cafeeiras, de grande demanda, despovoando as áreas canavieiras no Nordeste, sobretudo. A lavoura do café gerou significativas divisas, tanto pelas lavouras no Rio e em São Paulo, e criou uma nova, poderosa e politicamente forte aristocracia rural, a dos "barões do café". Esta cultura encontrou muitos estímulos por se considerada fácil e muito rentável, necessitando de grandes extensões de terras (ocupadas no interior), e de mão-de-obra (escrava). Embora lucrativo, o plantio do café desgastava muito rapidamente o solo, motivo para a constante movimentação nas áreas de cultivo, e do seu declínio na região fluminense. Outro problema era a carência do uso de novas técnicas e instrumentos. A adoção de ferramentas como o arado, e de máquinas a vapor para o beneficiamento, e mesmo de procedimentos simples como o enfileiramento dos pés, só foram adotados a partir dos anos 1870. Essa era uma das razões para o café brasileiro ser considerado de qualidade inferior, se comparado ao de outros países, o que não impediu, no entanto, que ao longo do período imperial, o Brasil fosse o responsável por 50% da produção mundial, número que aumentou para 75% nas primeiras décadas da República.
[12] Em 1567 a capitania de São Vicente foi desmembrada e deu origem a capitania do Rio de Janeiro. A separação deu-se após a expulsão dos franceses da região e em função da vulnerabilidade da baía de Guanabara. Além do entorno da baía, a nova capitania real compunha-se, no litoral, de regiões pertencentes à capitania de São Tomé, ao norte. Localizava-se ali a cidade que seria posteriormente o centro administrativo da colônia: São Sebastião do Rio de Janeiro, fundada em março de 1565. Desde sua fundação, esta cidade e a capitania como um todo desempenharam papel central na defesa de toda a região sul da América portuguesa, fato demonstrado pela designação do governador do Rio de Janeiro Salvador de Sá como capitão-general das capitanias do Sul (mais vulneráveis por sua proximidade com as colônias espanholas), e pela transferência da sede do vice-reinado, em Salvador até 1763, para o Rio de Janeiro quando a parte sul da colônia tornou-se centro de produção aurífera e, portanto, dos interesses metropolitanos. Até o início do século XVIII a ocupação limitava-se ao litoral, em especial Rio de Janeiro e região de Cabo Frio. A descoberta do ouro no interior ocasionou o surgimento de vilas e povoados que margeavam o caminho para a região das minas. No litoral norte, a cana de açúcar e a pesca da baleia desenvolveram-se ao longo do século XVII, onde no século anterior a exploração de pau-brasil devastara a mata nativa.
[13] Estabelecida em 1534, teve como primeiro capitão-donatário Francisco Pereira Coutinho, militar português pertencente à pequena nobreza que serviu nas possessões da Índia. Em 1548, foi retomada pela Coroa e transformada em capitania real. No ano seguinte, o governador-geral Tomé de Sousa fundou a cidade de Salvador, primeira capital da colônia, posição que ocupou até 1763, quando a sede administrativa foi transferida para o Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, o rei d. José I extinguiu as capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro e incorporou-as à Bahia. A ela também ficou subordinada, até 1820, a capitania de Sergipe d'El Rei. Sua geografia, no período colonial, estava dividida em três zonas principais: o grande porto - que compreendia a cidade de Salvador -, o Recôncavo, e o sertão, as quais possuíam atividades econômicas específicas. A cidade de Salvador exerceu as funções de porto transatlântico e de cabotagem para o comércio de fumo, algodão, couro e açúcar (principal produto de exportação), assim como para o tráfico de escravos. No Recôncavo, a agricultura comercial se destacava, concentrando um grande número de engenhos de açúcar; também ali se praticava a cultura do fumo e, mais ao sul, uma agricultura de subsistência. No sertão, a principal atividade era a pecuária, com produção de carne, de couro e de sebo, além do fornecimento de gado que servia de força motriz nos engenhos e ao abastecimento de Salvador e do Recôncavo. A vida política e social na Bahia era um reflexo da "grande lavoura" canavieira dominada pelos senhores de engenho, existindo, também, uma forte influência da religiosidade no cotidiano da população.
[14] Em 1616, quando Belém foi fundada, as possessões portuguesas no Norte não haviam ainda sido devidamente colonizadas. A ocupação mais efetiva da região amazônica começou, precariamente, a ocorrer durante o período da União Ibérica (1580-1640) e apesar de grupos de portugueses e religiosos já haverem se aventurado rio Amazonas acima, as terras eram ainda majoritariamente habitadas por índios, selvagens ou "pacificados", e era grande a presença de estrangeiros em feitorias e aldeias, explorando as riquezas naturais da região. As conquistas do Norte eram inicialmente subordinadas ao Estado do Maranhão, que não conseguia defender toda a vasta região amazônica, além de expandir as fronteiras para o oeste. Para tentar efetivar a apropriação do território e conter o alcance da influência dos religiosos nas missões e aldeamentos, a Coroa criou e distribuiu sistematicamente entre 1615 e 1645, capitanias e sesmarias ao longo do rio Amazonas. As capitanias que compunham o Estado no século XVII eram Pará, Maranhão e Piauí - reais - e Cumá, Caeté, Cametá e Marajó (ou Ilha Grande de Joanes), estas particulares e subordinadas às da Coroa. O regime das capitanias permaneceu em vigor desde 1615 até 1759 quando o marquês de Pombal, primeiro ministro de d. José I, reformulou o sistema, incorporando todas à Coroa e dando uma nova configuração ao Estado do Grão-Pará e Maranhão. O Grão-Pará representou grande possibilidade de riqueza para colonos e colonizadores, interessados nas drogas do sertão e nas terras indígenas, ricas não somente em produtos a serem explorados sem a necessidade de muito esforço ou investimento, mas também na mão de obra indígena a ser explorada. O Setecentos, sobretudo na segunda metade, foi um período profícuo para a região, devido à intensificação do comércio das drogas e ao incentivo às culturas agrícolas, como o cacau, tabaco, café, algodão, entre outros, promovidos pela Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão e resultante da expulsão dos jesuítas, que controlavam o comércio com os índios. Um dos principais empecilhos ao desenvolvimento da agricultura era a "falta de braços", que se tentou compensar com a entrada de escravos africanos, mas a população negra no Pará não chegou a ser muito grande. Ao contrário, com o incentivo à colonização e criação de vilas, a população de brancos livres era expressiva, um dos fatores que favoreceu a penetração e identificação com um ideário liberal, que fez com que o Pará aderisse à Revolução do Porto e ao sistema constitucional em 1820 e acabasse sendo a última província a aderir ao governo do Rio de Janeiro e ao Brasil independente, em 1823, depois de acirrada guerra de resistência.
[15] Planta nativa da América, usada pelos índios em seus rituais e recreações. Popularmente chamado de fumo, o tabaco foi o segundo maior produto de exportação da América portuguesa até o século XVIII, destinando-se a partida de melhor qualidade à metrópole. Igualmente, foi uma das principais mercadorias de troca no comércio de escravos na costa africana, sendo particularmente apreciado pelo seu aroma e gosto adocicados, provenientes do uso do melaço para facilitar a torção das folhas. Devido a sua crescente importância, em 1674, houve a criação da Junta da Administração do Tabaco responsável por administrar o monopólio real e coibir o contrabando. Posteriormente, foram criadas superintendências nos portos mais importantes da Colônia, buscando controlar a qualidade e o mercado. A partir de 1751, estas atribuições passaram às Mesas de Inspeção. Foram regiões produtoras de tabaco: Pará, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia.
[16]  Gordura localizada debaixo da pele do porco, com o respectivo couro. A criação de suínos e a produção de toucinho destinavam-se ao consumo familiar e ao abastecimento dos mercados locais. O toucinho é o mais importante subproduto da criação de suínos. Alimento utilizado no preparo de todas as comidas, o toucinho servia para cozinhar, untar e preservar os alimentos. Foi utilizado também para substituir a manteiga e o azeite. Separado da carne, o toucinho podia ser conservado por meio da salga, depois encaixotado, e comercializado. A carne também podia ser salgada para a venda. Alimento indispensável na dieta alimentar dos habitantes da colônia, o toucinho integrava obrigatoriamente o farnel de bandeirantes, tropeiros e viajantes principalmente na sua versão salgada. Os escravos e a população pobre consumiam diariamente o toucinho acompanhando de feijão preto e farinha de mandioca.
[17] A sola é um produto derivado do couro do gado bovino. Caio Prado Jr, em Formação do Brasil Contemporâneo, ao falar da criação do gado vacum, lembra que era preciso atentar para a importância dos subprodutos, como o couro, que tinham grande participação no comércio colonial. Nas tabelas de exportações dos portos do Maranhão até os da Bahia, a sola aparece juntamente com os couros salgados, curtidos e as vaquetas. Em Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas, ao tratar da pecuária, Antonil se refere aos "meios de sola, que eram as metades de couros inteiros de bois, curtidos". Como medida, um meio de sola correspondia à metade do couro curtido de um boi inteiro. A quantidade de meios de sola importada a cada ano por Portugal era de 110 mil unidades, o que correspondia na época a 201.800 réis. João Martins Pereira de Alencastre, presidente da província de Goiás entre 1861-1862 em seus Anais da província de Goiás, aponta a sola como um dos produtos comercializados entre essa e a província do Pará, constando que em maio de 1805, 91 meios de sola, juntamente com outros produtos, como o açúcar, algodão e fumo, tenham saído do Porto de Santa Rita em Goiás em direção ao Pará.
[18] D. Francisco de Assis Mascarenhas, sexto conde da Palma e marquês de São João da Palma, nascido em Lisboa em 30 de setembro de 1779 e falecido no dia 6 de março de 1843 no Rio de Janeiro, foi um administrador colonial e político luso-brasileiro. Ao longo de sua carreira foi governador da capitania de São Paulo, de Minas e de Goiás. Em 1804, como governador de Goiás, d. Francisco foi o responsável por executar algumas reformas de caráter político, administrativo e econômico que ajudaram a capitania a sair da situação de penúria em que se encontrava devido à escassez de metais preciosos nas minas da região. Foi no governo de Mascarenhas que se cumpriu a determinação do alvará de 18 de março de 1809, que estabelecia a divisão da comarca de Goiás em duas, uma ao Norte, com sede em São João de Duas Barras, na confluência do rio Araguaia e do Tocantins, e a outra na parte centro-sul. Uma medida importante adotada em seu governo foi o incentivo à navegação dos rios Araguaia e Tocantins, que favorecia comerciantes e agricultores locais, envolvidos na produção e na distribuição de gêneros provenientes da lavoura, que passavam a ter a possibilidade de escoar seus produtos pelo comércio fluvial entre Goiás e o Pará. A iniciativa de Mascarenhas recebeu respaldo da coroa, pois d. João concedeu por meio da carta régia de 7 de Janeiro de 1806 a isenção de pagamento de dízimos por 10 anos a todos os lavradores que se encarregassem de "fundar agriculturas nas margens dos rios Araguaia, Maranhão e Tocantins". Mascarenhas incentivou outras atividades para a capitania, além da mineração, como agricultura, comércio, navegação e também indústria, instaladas posteriormente ao alvará de 1º de abril de 1808 que permitiu as manufaturas no Brasil. Não se deteve apenas em promover a navegação dos rios Tocantins e Araguaia, no norte da capitania, mas também procurou facilitar o contato com São Paulo, por meio da navegação dos rios da parte sul do território, já que percorrer as estradas era muito mais dispendioso. Em 1809, depois de 5 anos de governo, d. Francisco Mascarenhas foi transferido para o governo de Minas Gerais, tomando posse em seu lugar, Fernando Delgado Freire.
[19] Joaquim Teotônio Segurado nasceu em Moura, no dia 25 de fevereiro de 1775 e faleceu na Vila de Palma, no dia 14 de outubro de 1831. Foi ouvidor da capitania de Goiás de 1804 a 1809, período no qual apresentou algumas propostas de desenvolvimento para a província, entre as quais se destacam a divisão da província em duas comarcas, a tentativa de promover a navegação fluvial, a abertura de uma estrada que ligasse o Rio de Janeiro ao Pará passando por Goiás, além de um serviço de correios entre as duas capitanias por meio da rota já existente que passava pelo norte de Goiás. Para a administração da recém-criada comarca do norte, que hoje constitui aproximadamente o estado do Tocantins e parte do sul do Pará, o príncipe regente d. João designou o desembargador Joaquim Teotônio Segurado, que já havia sido ouvidor de Goiás, encarregado de cuidar da nova comarca, que teria estatuto de capitania. Foram duas as sedes da capitania, que existiu entre 1808 e 1814: a vila de São João das Duas Barras e a vila de Palma, criada pelo alvará de 25 de Fevereiro de 1814, que ainda a isentava de pagar os dízimos e as décimas por um prazo de 10 anos. Joaquim Teotônio Segurado foi o responsável pelo incentivo à agricultura e à mineração na capitania, que passou a escoar metais preciosos pelo rio Tocantins até Belém, e de lá até Lisboa. Em 7 de Agosto de 1821, elegeu-se deputado junto às Cortes de Lisboa pela capitania de Goiás para discutir as implicações que a constituição liberal jurada por d. João VI teriam para o Brasil. Respondeu às manifestações de independência de Portugal constituindo um governo provisório ainda em 1821, não sob liderança dos rebeldes que desejavam romper com a metrópole, mas comandado pelo próprio que apoiava integralmente a d. João e às Cortes de Lisboa. Depois da independência do Brasil recolheu-se da vida pública; foi assassinado, supostamente ainda em razão de ter se oposto à independência da capitania.

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